Francisco Rodeiro: Junta dos Olivais está “a traçar um caminho próprio”
Santo António dos Olivais assinala amanhã 168 anos. Como é que está a freguesia? De que ponto de vista?
Do ponto de vista do autarca.
Acho que se recomenda. E porquê? Vou-lhe fazer uma síntese das várias valências em que se desdobra uma freguesia. Quando nós tomamos posse — fez um ano no passado dia 15 de outubro — recebemos uma autarquia, do ponto de vista financeiro, sem dívidas e até com um saldo muito razoável. A preocupação da atual equipa foi reforçar a solidez financeira.
Porquê?
Porque a Junta de Freguesia tem à volta de 30 funcionários e isso implica uma massa salarial bastante elevada. Portanto, bastaria que houvesse uma interrupção de um financiamento para a situação se complicar. Temos conseguido criar esse músculo financeiro para nos permitir depois traçar novas metas. Portanto, nos vários setores onde trabalhamos, caso não tenhamos apoios por qualquer circunstância, podemos dizer que a junta dispõe de uma almofada financeira para fazermos face a algum imprevisto nos próximos tempos. Pode-me perguntar: essa tranquilidade serve para quê? Apesar das juntas não quererem ter lucro, pois não são empresas lucrativas, nós somos entidades que prestam diversos serviços à sociedade, muitas das vezes gratuitamente.
Uma almofada que permitirá, por exemplo, ajudar na área social…
A Junta de Freguesia continua a dar um apoio muito substancial na área social, principalmente através da Comissão Social da freguesia. Estamos a apoiar um universo de mais de 1.000 famílias, através da entrega de alimentos e medicamentos. Parte desse apoio vem também do Fundo Municipal de Emergência Social, mas também temos disponibilizado recursos próprios para acudir a necessidades emergentes. O Natal é um dos exemplos. Todos os anos, a junta entrega cabazes às famílias carenciadas da freguesia. Este ano, são mais de 200 e vamos ter de recorrer a recursos próprios para compor os referidos cabazes. Tudo porque temos assistido com preocupação ao facto das empresas, que costumavam contribuir com alimentos ou outro tipo de apoios, e até famílias, que estão a reduzir esses apoios devido às previsões negativas para o ano 2023. Isso significa que tem de ser a Junta de Freguesia a aumentar o seu contributo.
Nessa radiografia da freguesia, permita-me introduzir também alguns dos aspetos relativos ao aniversário desta sexta-feira. As comemorações começam, logo de manhã, com a atribuição de um apoio a duas instituições sociais da freguesia…
São duas Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS) da freguesia: a Atlas e o Centro de Acolhimento João Paulo II. No contacto feito, elas indicaram-nos o que precisavam, o que achavam que era o mais premente e, portanto, nós adquirimos os bens que iremos entregar neste dia 25. Um apoio suplementar para além daquele que é atribuído anualmente.
Nessa radiografia, passamos para as obras. O programa, inicialmente, previa a abertura ao público de dois locais, mas o mau tempo e a falta de material levaram a que tivesse sido alterado para uma visita aos espaços onde estão a decorrer obras na freguesia…
O objetivo não era propriamente uma inauguração formal, mas permitir que os munícipes pudessem usufruir plenamente dos espaços renovados. É o caso da Praceta de São Sebastião e um novo parque infantil na zona do Bairro Norton de Matos. Mas, tal como referiu, estes dois locais não poderão ser usufruídos pelos cidadãos a partir desta sexta-feira. Mas estará para breve, garanto.
Como tem sido a relação com a câmara nesta área das obras?
Quero acentuar a relação de grande proximidade entre a junta e a câmara na área das obras.
Melhorou em relação ao passado recente?
Melhorou substancialmente. Atenção: eu não era presidente da junta na altura, mas todos nos recordamos das queixas que os presidentes de junta faziam, sem discriminação de cor partidária, relativamente à gestão autárquica anterior, no sentido de que não havia obras ou de que a gestão autárquica anterior não era muito sensível à realização de obras nas freguesias. Neste momento, no que diz respeito à freguesia de Santo António dos Olivais, havia obras em atraso desde 2017, as quais estão a ser realizadas. No que diz respeito à recuperação do atraso, o presidente da câmara assumiu que ele seria totalmente eliminado no ano de 2025. Apesar dessa recuperação, eu admito que poderíamos andar um bocadinho mais depressa no sentido da elaboração dos projetos e do financiamento das obras. A explicação que nos é dada – e que eu aceito como válida – é de que a crise do aumento dos combustíveis, devido à guerra na Ucrânia, acentuou substancialmente o custo das obras e, portanto, o presidente fala numa diferença de 8 a 10 milhões a mais de custos e, como tal, isso tem implicações na realização das obras da freguesia. No conjunto, nesse setor das obras, podemos dizer que a situação melhorou substancialmente e é verdade que em Santo António dos Olivais estão já quatro obras em andamento.
Este ano, a junta de Santo António dos Olivais preferiu apostar numa feira de artesanato em vez do Mercado de Natal, que vinha a realizar em parceria com a União das Freguesias de Coimbra. O que se passou?
O mercado de Natal do ano transato, que eu já apanhei praticamente em andamento, não correu conforme as nossas expectativas. Por várias razões. Em primeiro lugar, porque deu um prejuízo avultado para qualquer freguesia, mesmo aquelas com a dimensão de Santo António dos Olivais. O prejuízo rondou os 18.000 euros para a nossa junta e para a União das Freguesias de Coimbra e 36.000 euros para a câmara municipal. Por outro lado, as coisas não correram conforme os desígnios traçados, os quais se traduziam no desenvolvimento das atividades locais. A maior parte dos agentes económicos instalados no Mercado de Natal não era de cá e, consequentemente, também os grandes investimentos que foram feitos, quer na pista de gelo quer na iluminação, são investimentos que vêm de fora. Nalguns casos, até do estrangeiro. Por este tipo de razões, eu tive a oportunidade de sugerir ao presidente da Câmara José Manuel Silva que o Mercado de Natal fosse liderado pelo município, com a participação das Juntas de Freguesia. A nossa freguesia estava mesmo empenhada, e até esperançada, em colaborar nesse evento para lhe dar uma grande dimensão. Provavelmente não foi assim entendido. Não sei porquê, porque desconheço as razões. A verdade é que, perante esse silêncio arrastado no tempo, nós decidimos traçar um caminho próprio. Foi assim que decidimos avançar para a feira de artesanato.
A falta de resposta de José Manuel Silva magoou-o?
Não é bem mágoa, mas, digamos, é uma certa insatisfação. Eu estava esperançado em que houvesse uma resposta num sentido ou noutro por parte da câmara. Foi esse silêncio que, particularmente, me feriu, me desgostou. Porque eu acho que, quando alguém sugere ou avança uma proposta e mesmo que ela não seja aceite, merece pelo uma resposta, independentemente do sentido.
Ficou surpreendido com o anúncio do mercado de Natal na Praça do Comércio?
Exatamente, embora eu reconheça que a câmara municipal tem todo o direito de fazer o mercado onde bem entender, associar-se com quem entender, fazer aquilo que bem entender.
Mas o Merc’@rte parece surgir numa situação do estilo: não nos deixam participar no vosso mercado, então vamos fazer o nosso…
Não é bem esse o sentimento, apesar do público poder, naturalmente, pensar dessa forma. Mas quero aqui frisar que a nossa freguesia está disponível para colaborar com a câmara e com outras freguesias. Não havendo essa oportunidade, tem de se traçar um caminho próprio. Apesar dos meios serem sempre escassos, temos qualidade humana e alguma estrutura financeira que nos permitirá fazer algumas realizações, independentemente de eventuais apoios que possam, ou não, surgir. Uma freguesia destas não poderia deixar aproximar–se o Natal e não fazer rigorosamente nada. Foi por isso que surgiu esta ideia deste Merc’@rte. Uma ideia que não é original, pois já teve outras edições anteriores.
E que junta também os agentes culturais da freguesia…
Todos os agentes culturais com sede na freguesia com quem nós temos acordos e que, por sua vez, retribuem mediante a participação nestes eventos.
Este mercado superou as vossas expetativas?
De longe. A análise só poderá ser feita num momento posterior, mas para já achamos que o evento está a suscitar muito interesse, porque tivemos de longe uma procura superior à capacidade de oferta. A junta sentiu-se limitada e temos que rever no futuro essa circunstância limitada na correspondência das expetativas criadas por parte dos agentes económicos. Se nós tivéssemos 50 barracas, por exemplo, essas 50 barracas seriam ocupadas.
Noto que a junta está determinada a fazer
o seu próprio caminho?
Sem dúvida, mas nunca de costas viradas para a câmara e todas as outras freguesias. Quero fazer esta declaração de princípio. A Junta de Freguesia de Santo António dos Olivais é solidária com a Câmara Municipal e, nomeadamente, com o seu presidente. E é solidária com todas as juntas de freguesia. Mas não tem que estar obrigatoriamente sempre a pedinchar seja o que for. Não tem obrigatoriamente de estar dependente da vontade de terceiros. Temos um caminho próprio a percorrer. Do ponto de vista social, cultural, desportivo, apoiando as associações desportivas, independentemente das circunstâncias exteriores que possam limitar ou desenvolver a nossa atividade. É esta a marca que eu quero desenvolver.


