Há mulheres no desporto e recomendam-se
Sónia Guerra Veloso é, desde julho de 2021, a presidente do Sampaense Basket, no concelho de Oliveira do Hospital. Administrativa de profissão vai agora para o segundo ano do mandato. Após a ameaça de um vazio diretivo, Sónia assumiu as rédeas do clube do coração. É nascida e criada em São Paio de Gramaços e, talvez, tenha sido essa a principal razão que a levou a aceitar o desafio.
“Eu vi nascer este pavilhão, vi crescer esta instituição, e não era de todo previsível que fosse eu a presidente”, referiu a presidente, de 45 anos.
Primeira mulher presidente do clube
“Houve muitas pessoas que me deram força e me incentivaram a avançar. Nunca me senti discriminada pelas pessoas da aldeia por ser mulher. Sempre fui acarinhada. As pessoas conhecem-me”, disse.
Além de Sónia, há mais duas mulheres no clube. Marta Dias, que funciona como “braço direito” e assume as funções de diretora, e Susana Garcia, que integra o Plenário. O clube tem ainda uma comissão de mães que ajudam em determinados eventos que o clube promove.
A presidente considera que o facto de ter uma mulher à frente dos destinos do clube “é logo diferente” porque “as mulheres têm uma sensibilidade diferente num mundo dominado por homens”. “Acho que nós mulheres somos mais abrangentes, agregadoras e temos uma relação muito próxima e aberta com os atletas e penso que isso nos distingue”.
Criar uma equipa feminina sub-12
Apesar de ser uma mulher a dirigir o rumo do Sampaense, o clube não tem, para já, nenhuma equipa feminina, no entanto, “estamos prestes a conseguir criar uma equipa feminina sub-12.”
Sónia é casada com Cláudio Figueiredo que é o treinador da equipa principal.
“Toda a gente me conhece como a esposa do treinador, mesmo quando ainda não era presidente. A nível pessoal não é fácil porque o assunto é só este mas nunca tive nenhum problema. Além disso o Cláudio já era o treinador antes de eu assumir a presidência”, disse. “
Independentemente de ser mulher ou de ser vista como a esposa do treinador, Sónia Guerra Veloso não teve medo de assumir a presidência de um clube que ao longo dos anos foi comandado por homens .
“Numa altura em que cada vez mais se fala na igualdade de género e se cada mulher lutar pelo mesmo, o desporto torna-se um lugar melhor e acho que esse deve ser o objetivo de qualquer mulher quando entra para este mundo”, afirma.
Ana Sousa é, desde agosto do ano passado, roupeira no Nogueirense, em regime de part-time. Na outra parte do tempo, é operadora de call center e trabalha a partir de casa.
A aventura no Nogueirense começou quando a direção estava à procura de alguém para o cargo. “Estava há três anos em casa, em teletrabalho, moro sozinha com o meu filho, estava a ficar um bocadinho desanimada mas vir para aqui e conviver com treinadores, atletas e diretores mudou-me completamente a nível pessoal. Foi uma mais-valia”, contou.
Jogadores “respeitam”
Ana trabalha numa sala, paredes meias com o balneário. É lá que fica enquanto os jogadores se equipam, seja nos treinos ou nos jogos.
Quando aceitou vir para o clube teve algum receio. “Eles são todos rapazes mas não tenho nada a dizer. São respeitadores, tratam-me bem e até agora não tenho razões de queixa”, disse.
“Eles veem-me um bocado como um homem. Se precisar de entrar no balneário, entro, mas eles têm sempre o cuidado de fechar a porta. São os primeiros a preocuparem-se com isso”, referiu Ana. “Se eles precisarem de alguma coisa e se estiverem a vestir-se, batem à porta para pedir seja aquilo que for e têm cuidado com esse aspeto”, acrescentou.
No que diz respeito aos atletas das equipas de formação, Ana “não tem praticamente contacto”.
Mais duas mulheres
Além da Ana, existem mais duas mulheres no Nogueirense. Paula Santos faz parte da direção do clube e Vera Rodrigues é diretora de um dos escalões de formação.
“Eu acho que nós mulheres podemos trazer uma parte mais humana. Acho que por sermos mulheres sentimos mais as dores deles, eles desabafam mais comigo e como sou mais velha tenho outra experiência, que é sempre uma mais-valia”, afirma Ana.
A experiência de integrar este mundo, até agora, tem sido “gratificante” e garante que “nunca foi mal tratada ou discriminada por ser mulher por ninguém dentro do clube”.
“O desporto está mais direcionado para os homens, e as mulheres quando querem entrar para estas atividades, por vezes, são um bocadinho desvalorizadas e é bom que as mentalidades comecem a mudar”, garantiu a funcionária.
Para Ana, o mais importante é sentir-se respeitada. Confessa que “é agradável trabalhar aqui” porque diz que ganhou uma nova vida social e sente-se parte de um clube que lhe dá emprego, mas, também, e sem o saber, dá saúde.
Ana é uma pessoa mais feliz dentro do desporto.
Daniela Correia tem 23 anos e é massagista na equipa de futebol do Vasco da Gama, da freguesia do Seixo da Beira, no concelho de Oliveira do Hospital. A equipa compete, atualmente, no campeonato INATEL. A jovem é natural da mesma freguesia e estuda na Escola Superior de Enfermagem de Coimbra, onde frequenta, o 4.º ano.
Chegou ao clube em outubro de 2021 porque “as pessoas conheciam-me e sabiam que era estudante de enfermagem”. Elementos da direção do clube contactaram-na para fazer a assistência aos jogadores durante os jogos. “Faço isso ao fim de semana quando vou a casa ”, contou a jovem.
No início, teve algum receio em aceitar, mas foi por pensar que não teria tempo e disponibilidade para se comprometer com o clube. “O facto de serem rapazes não me preocupou, até porque conheço a maior parte deles”, acrescentou.
Há inconvenientes mas também há respeito
A estudante de enfermagem revela que “há sempre inconvenientes por ser mulher no meio de homens”. “Não posso estar dentro do balneário quando se estão a vestir, mas quando entro, eles respeitam-me. De uma forma geral, todos me tratam bem no clube”, disse.
Para Daniela, o facto de ter de tocar nos jogadores nunca gerou momentos desconfortáveis ou constrangedores porque “é algo que faz diariamente na sua profissão.
Mentalidades precisam evoluir
Apesar de ser bem tratada pelos jogadores e pelo clube, nem sempre evita ouvir algumas “bocas” vindas dos adeptos, quando entra em campo.
“Já ouvi coisas como: assim também gostava de jogar no Vasco da Gama, ou: quando lhe metes as mãos em cima ficam logo bons”, contou. “Estas situações acontecem em quase todos os jogos e dão para refletir. Se fosse um homem, provavelmente, não ouvia estas coisas e sinto que ainda há alguns estereótipos, principalmente por parte dos adeptos”, acrescentou.
“Estas situações acontecem com pessoas que não me conhecem porque quem me conhece respeita o seu trabalho”, referiu Daniela.
Neste sentido, a jovem acredita que “se cada vez mais mulheres trabalharem no mundo do desporto, onde geralmente há mais homens, as coisas começam a mudar”.
“A participação das mulheres é fundamental para que a sociedade perceba, que isto não é um mundo de homens, é um sítio onde as mulheres conseguem realizar um excelente trabalho”, finalizou.




