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Magia das guitarradas de Artur Paredes reaparece 43 anos depois da sua morte

09 de às 10h30
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DB/Foto de Pedro Ramos

O ponto de encontro foi a Sé Nova e à chegada já as guitarradas de Coimbra eram visíveis. Podia ser perfeitamente um ensaio para uma serenata, mas o motivo deste ajuntamento era outro. Mais do que tocar, o objetivo, desta vez, era falar e lembrar Artur Paredes. O guitarrista conimbricense lançou somente dois álbuns, um em 1957 e outro em 1960, que chegaram perfeitamente para ser conhecido como um dos pais da canção de Coimbra.
Para os mais interessados, alguns inéditos iam aparecendo em algumas tertúlias feitas pela cidade, porém o seu reportório conhecido está datado desses mesmos dois discos.
Simão, Tiago e Vasco, três músicos que a cidade dispõe, oferecem agora a Coimbra um “tesouro” escondido no tempo.
O guitarrista partiu em 1980 e, 43 anos depois, vão ficar a ser conhecidos inéditos de Artur Paredes.
Simão e Tiago, os dois guitarristas de Coimbra, chegaram primeiro à praça da Sé Nova e explicaram ao DIÁRIO AS BEIRAS como é que este “tesouro” lhes chegou às mãos.
“O Artur Paredes na sua vida toda gravou em duas fases. Na sua primeira fase, nos anos 20, gravou os seus temas em discos de 78 rotações, numa qualidade terrível. Mais tarde, lançou dois discos. É o seu único espólio gravado”, começou por esclarecer Simão Mota.
“Alguns destes inéditos já andavam por aí a circular. Há muita gente, que passou pela escola do Jorge Gomes, e tinha acesso a alguns destes inéditos”, acrescentou Tiago Rodrigues.

Amigo fez-lhes chegar inéditos

No entanto, as maiores relíquias agora descobertas foram oferecidas por um amigo viciado em Artur Paredes.
“Felizmente, um senhor chamado Alexandre Brandão, que era fanático por Artur Paredes, gravou transmissões na Emissora Nacional ou concertos que ele dava. Através do Jorge Serra tivemos acesso a todo este espólio”, revelou Simão Mota.
O espólio é muito diversificado, mas com muito pouca qualidade, o que dificultou todo o processo.
“Devido à forma e à época em que foram gravados, os ficheiros tinham muito pouca qualidade. Retirar as músicas foi muito difícil, foi um trabalho de muita minúcia do Tiago”, afirmou Simão.
O guitarrista lembrou que este processo foi complicado até porque não basta conhecer a técnica musical de Paredes.
“Para conseguirmos retirar as músicas foi preciso perceber a técnica, mas também a fase de composição de Artur Paredes e o desenvolvimento da música”, esclareceu.

Má qualidade das gravações dificultou

Tiago Rodrigues foi o grande ouvido destas gravações inéditas. O guitarrista assumiu que foi “um processo de muitas horas”, tanto a ouvir as músicas em má qualidade, como depois para as passar para uma pauta.
O processo, que começou sensivelmente há um ano, causou dor, mas também deu muitas alegrias ao músico.
“Conseguir descodificar alguma coisa nova fazia-me a semana ou mês. Decidi começar a tirar estes inéditos porque ia ouvindo as pessoas a tocar e achava que não era igual ao Artur Paredes. Já noutros estilos tinha este hábito de passar para pauta o que ouvia”, afirmou.

Técnica nova de tocar guitarra

As guitarradas que saíram destes inéditos mostraram muito mais que a canção de Coimbra. O espólio que agora começa a ser revelado pelo trio tem, para Simão Mota, um peso histórico e muito simbólico para o fado de Coimbra. O verdadeiro tesouro foi encontrado no método como Artur Paredes tocava.
“Nestes temas vemos uma inovação na técnica de tocar guitarra de Coimbra na mão direita. A guitarra de Coimbra normalmente toca-se com o indicador, para a melodia, e o polegar faz o apoio harmónico. Nós conseguimos descobrir, através de gravações e fotografias a que tivemos acesso por parte da Luísa Amaro, que ele usava os dedos anelar, o médio e até o mindinho. Esta mudança dá uma faceta nova à música e quase parece que descobrimos um instrumento novo”, salientou Simão Mota.
Mais de 60 anos depois da sua última obra publicada, Artur Paredes começa a demonstrar algo novo. O peso destas descobertas está nas mãos do trio.
“Estes inéditos mostram uma nova faceta de Artur Paredes, quer da sua obra, quer da guitarra de Coimbra. Isto é um tesouro que nos chegou às nossas mãos, mas também uma responsabilidade enorme”, vincou Simão.
Acabado de chegar, Vasco Rodrigues, o guitarrista de guitarra clássica do grupo, assumiu a importância destas descobertas.
“Acho que estes descobertas inéditas, feitas por nós e não só, são fundamentais para que mais músicos ganhem interesse em descobrir e produzir mais música de qualidade”, disse.
O grupo musical tem já vindo mostrar o reportório descoberto.
“Nós estreámos estes inéditos no passado mês de outubro no espetáculo “Correntes de um só rio”, no Convento São Francisco. Para os espetáculos que temos agendados, nós tocamos 12 temas inéditos”, revelou.

Ainda há mais inéditos por editar

Ainda assim, o espólio não se fica por aqui. Os músicos garantem que há ainda alguns inéditos por escutar e retirar.
“As gravações que temos acesso são desde os anos 1940 até aos anos de 1970. Temos uma gravação dele com o Orfeon, aqui em Coimbra, por exemplo”, assumiu Tiago Rodrigues, tendo sido posteriormente completado por Simão Mota.
“Entretanto já descobrimos mais algumas coisas, o reportório dá para chegar perfeitamente a mais de 20 peças musicais”, afirmou.
Este reportório inédito não será divulgado somente em concertos, o grupo musical tem já marcada a gravação de um disco para este mês para deixar imortalizada esta herança.
“A nossa pretensão é somente mostrar estes inéditos. Estes inéditos são tão bons que os temos que mostrar. Isto na prática é como se tivéssemos descoberto um instrumento novo. O que o Artur Paredes fez há praticamente 100 anos está muito à frente do que a maioria dos guitarristas de hoje em dia faz”, frisou.

Tertúlias são fulcrais para transmissão do saber

Muitas vezes descobertos mas também remetidos às tertúlias que se fazem pela cidade, os guitarristas e fadistas de Coimbra deixam todo o seu reportório e a sua técnica nesses momentos de partilha. O grupo assume que as tertúlias são fulcrais, mas esclarece que há que dar o próximo passo.
“As tertúlias são fundamentais na transmissão oral do conhecimento. A música popular faz-se de convívio e isso é fundamental para se aprender a tocar. Ainda assim, estamos numa fase em que se deve deixar algo documentado para que estes inéditos e outros temas que possamos fazer possam ficar audíveis para todos”, disse Simão.
O guitarrista acha mesmo que Coimbra vive um momento de viragem relativo à canção da cidade.
“Neste momento há uma geração de malta nova que está muito bem preparada, conhece muito bem a raiz e tem uma vontade de fazer coisas novas. Coimbra tem músicos com muita qualidade para que estes clichés desapareçam e a música de Coimbra volte a entrar no mapa”, vincou.
Simão lamentou ainda que a Canção de Coimbra tenha sido, ao longo dos tempos, vendida para turista ver.
“Infelizmente, Coimbra tem ficado num postal bonito para os turistas, num postal que imortalizou as capas ao luar, as donzelas. Isto é muito fácil de vender, mas a música de Coimbra é muito mais que isto. A música de Coimbra foi revolta quando foi preciso ser revolta, foi motivo de reflexão quando foi preciso e andou sempre na vanguarda dos movimentos literários e artísticos”, reiterou.
Artur Paredes, nascido ainda no século XIX, em 1899, tornou-se uma referência da canção coimbrã. A sua doutrina musical ficou perpetuada não só no seu filho, Carlos Paredes, como em muitos outros músicos que seguem atentamente o seu reportório.
Em pleno século XXI, a doutrina de Paredes e o som das suas guitarradas ganham uma nova vida.
Artur Paredes morreu há 43 anos, mas a sua música permanecerá imortal.

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