Miguel Ribeiro: “Não tinha a perfeita noção do estado em que se encontrava a Académica”
A Académica iniciou na segunda-feira a época 23/24. Quais são as expetativas da direção para a nova época?
Ter uma época mais tranquila que a do ano anterior. A ambição está sempre presente na Académica, mas também temos consciência da situação financeira atual do clube. Sabemos perfeitamente até onde podemos ir para não colocar em causa o projeto de recuperação e de sustentabilidade da Académica, que pretende que o clube tenha um futuro melhor. Como disse, a ambição está sempre presente e o futebol é ambição. Os jogos são todos para ganhar, mas temos consciência, de facto, que a Liga3, como vimos no ano passado, é uma liga extremamente competitiva e a Académica, na situação atual, tem que ter a consciência de que não pode ir além daquilo que a sua situação financeira permite. Isto significa que temos que escolher bem com pouco, para termos uma competitiva, mas sempre com a ambição de fazer cada vez melhor. Para já, o nosso objetivo é o mesmo do ano passado: ficar entre os quatro primeiros nesta 1.ª fase da Liga 3, de forma a que possamos discutir a fase de subida, é isso que desejo. Isso, desde logo, garante a manutenção. Por exemplo, no ano passado o CF “Os Belenenses” foi repescado, teve uma 1.ª fase muito boa, reforçou a equipa e acabou por subir de divisão. Não estamos obcecados com isso, estamos, isso sim, com a ambição de trabalhar todos os dias junto de todo o staff e equipa para que a Académica se torne sustentável e fique numa posição em que, em pouco tempo, possa ter resultados desportivos que vão ao encontro daquilo que todos nós desejamos, que é criar as condições necessárias para a Académica ter futuro.
Por onde passa esse futuro?
Já disse que pode não ser no meu mandato, mas a missão que assumimos foi a de colocar a Académica em situação de ter futuro. Isso está-se a verificar, lentamente, com as medidas que temos adotado. Esperança há sempre. Este é o arranque de uma nova época e o objetivo é ficar entre os quatro primeiros para depois podermos reanalisar e verificar quais são as possibilidades para encararmos essa fase de promoção.
Assumiu a presidência em junho do ano passado, que balanço faz deste primeiro ano?
Não tinha a perfeita noção do estado em que se encontrava a Académica. Tinha, obviamente, uma ideia e alguma informação, mas só quando se começa a colocar, como se costuma dizer, as “mãos na massa”, é que começámos a verificar, efetivamente, a verdadeira realidade. Verificámos que estávamos obrigados a declarar insolvência da SDUQ, algo que não estava nos nossos horizontes. Felizmente correu bem e, neste momento, a SDUQ não é insolvente. Isso criou condições para sabermos qual é a verdadeira dívida que hoje a Académica tem. Isto é algo que nos anos anteriores não se sabia.
Há alguma explicação para não ser pública essa realidade?
Chegámos e verificámos, a determinada altura, que o número de credores era tão elevado, tal como a dívida, que estávamos na obrigação de declarar, por imposição legal, insolvência. Já existiram vários clubes que passaram pelo mesmo. Somos um caso raro, pois tivemos uma insolvência com um plano de recuperação que foi aprovado por larga maioria, cerca de 95%. Aqui há que referir o excelente trabalho do Dr. Luís Filipe Pirré, o verdadeiro obreiro de todo este processo e do resultado que obtivemos. Neste momento sabemos qual é a dívida da SDUQ. Vamos terminar um ano em que, pela primeira vez, a Académica não ficou a dever a jogadores, não quer dizer que, neste momento, não esteja algo em atraso, mas vamos finalizar o exercício com isso tudo saldado. Inscrevemos a equipa, não tivemos problemas com nada e não precisámos de pedir empréstimos. Só para se ter uma noção, quando chegámos aqui surgiram vários impedimentos, inclusive da FIFA, porque haviam dívidas relacionadas com jogadores, falamos de pagamento de mecanismos de solidariedade e os chamados direitos de formação. Foi extremamente difícil porque falamos de valores elevados.
Voltando à vertente desportiva. O início da Liga 3, na última época, também foi complicado?
Na parte desportiva também foi um ano complicado. Passámos muito tempo da primeira fase em último lugar. Felizmente conseguimos recuperar. Conseguimos ficar numa posição que nos permitiu arrancar a 2.ª fase em 2.º lugar. Depois fizemos uma 2.ª fase com uma derrota e um empate, em seis jogos.
Foi um primeiro ano de “fogo”?
Quando viemos para cá assumimos esta missão. Pensava que era o ano zero, mas, agora, acho que este é que é o ano zero. A temporada passada foi o ano -1. Foi um ano em que nos deparámos com uma série de problemas que ainda estamos a resolver, por exemplo, com a insolvência do OAF. Nesse processo surgem credores, as contas são penhoradas e nós não podemos governar uma casa sem dinheiro, então temos que, efetivamente, fixar o valor da dívida que o OAF tem de forma a estarmos em condições para podermos apresentar alguma solução, por exemplo, de investimento na Académica. Só assim poderemos ter uma equipa com força e com capacidade para almejar aquilo que tanto desejamos, que é a subida de divisão. A Académica não pode, pela sua história e por uma questão de sobrevivência, estar na Liga 3, nem numa 2.ª Liga, tem é que estar entre os maiores, na 1.ª Liga. Isso é que honrar o seu passado.
Venceu as eleições a 4 de junho de 2022 e pouco depois estava a começar a nova época. Que “lições” retiraram para esta temporada?
Nós tínhamos a noção de que, efetivamente, não estávamos em condições de inscrever a equipa na Liga 3, ou seja, a equipa ia para a distrital. Daí termos contraído, e foi o que falámos em campanha, um empréstimo de 750 mil euros. Tivemos avalistas pessoais, pessoas que se preocupam com a Académica e que ajudaram a que o empréstimo fosse possível. Isso permitiu inscrever a equipa, ou seja, pagar as dívidas aos jogadores que saíram e aos que cá estavam. No fundo, ter a possibilidade de inscrever a equipa, esse foi o primeiro passo. Depois tivemos a questão do treinador, pois em eleições não me ia comprometer com nenhum, porque não sabia o resultado. Já tínhamos alguns nomes e ficámos com o Miguel Valença, que trouxe alguns jogadores. Acho que nessa fase tivemos alguma inexperiência, pois tivemos ânsia em construir o plantel o mais rápido possível. Se calhar, hoje, já temos uma visão diferente. Esta época começámos com um lote que já tinha 20 de um total de 25 que podiam ser inscritos. Agora estamos a analisar, a ver e a negociar com mais calma. É aqui que nós temos de trabalhar com critério. Visto que o dinheiro é escasso temos que acertar nas contratações.
Estão reunidas as condições para uma época mais tranquila?
Eu desejo isso, porque se assim não for o meu coração não vai aguentar. É isso que eu pretendo. A casa já está mais organizada, quer financeiramente, quer em termos de recursos humanos, sobretudo no futebol sénior, porque na formação não existiu uma rutura abrupta, enquanto nos seniores mudou quase tudo, desde os jogadores aos treinadores, passando pela direção. Existiram várias coisas que podem ter contribuído para que esse início de época não fosse o melhor, mas terminámos bem. Para esta época mantivemos o treinador que terminou a última temporada. O Tiago já conhece a casa e sabe o que é que nós precisamos para fazer uma época tranquila. Contratámos o David Caiado para diretor desportivo, ele que terminou uma excelente carreira como jogador de futebol. Espero que tenha o mesmo nível enquanto diretor desportivo. É uma pessoa com vasta experiência porque contactou com várias realidades. Falamos de alguém que domina várias línguas e que tem formação em gestão desportiva. Tem um perfil que, acredito, é ótimo, pois é uma pessoa que tem uma atitude pró-ativa e com a qual se conversa bem. Penso que, também aí, vamos ter um profissional que nos pode ajudar a construir um plantel equilibrado e a fazer aquilo que eu acho que a Académica precisa, e que já não temos há muitos anos, que é a estabilidade. Eu, no ano passado, também fui “traído” naquilo que é a minha vontade, que passa por ter estabilidade no clube, por exemplo, passa por ter um treinador que possa estar aqui alguns anos e que possa trabalhar com tranquilidade, construindo uma identidade própria dentro da Académica. Queremos criar aqui um ambiente saudável que possa contribuir para uma performance desportiva que nos permita atingir o que desejamos.
Há uns anos um treinador do clube referiu que “a Académica vivia num clima de constante guerra civil”. Sentiu isso no seu primeiro ano como presidente?
Há uma coisa que eu tenho que reconhecer. Compreendo perfeitamente a reação dos adeptos e dos sócios. A Académica passar da 2.ª Liga para a Liga3 e estar mais de metade na 1.ª fase em último lugar, é natural que haja contestação, não vou criticar isso. Se eu fosse sócio preocupava-me e enquanto presidente também me preocupou. Primeiro tomei a medida de colocar o Zé Nando como treinador principal. Embora não seja fã das tradicionais chicotadas psicológicas, quando os resultados não aparecem tem que se fazer alguma coisa. Conseguimos, a partir de outubro, começar a preparar, com a calma que não tivemos no início da época, o mercado de janeiro. Acho que nessa janela fizemos contratações acertadas e dispensámos jogadores que não estavam a corresponder. Tivemos maior equilíbrio e acho que se tivéssemos uma primeira volta ao nível da segunda que fizemos, se calhar, teríamos ficado nos quatro primeiros e ido à fase de promoção. Ganhámos experiência com a realidade que encontrámos. Esta questão da “guerra civil”, nota-se. Já há uns anos largos, que a Académica está partida, isto não é de agora nem da direção que me precedeu. Desde a questão da SAD/SDUQ que começou tudo a ficar fragmentado. Acho que isso, sem dúvida nenhuma, não facilita o trabalho da direção.
Como se pode resolver ou atenuar essa situação?
Eu acho que se resolve com a apresentação de resultados. Se apresentarmos resultados e se as pessoas tiverem a noção que, efetivamente, estamos numa situação muito difícil e que tudo o que forem sucessos da Académica exigem, de facto, muito trabalho, acho que aí as pessoas vão acreditar que quem está na direção não está para criar divisões e que está a dar tudo para que a Académica consiga estabilizar. Não me vou eternizar e só ficarei aqui enquanto me sentir útil para fazer um trabalho que conduza a Académica no rumo certo, que passa pela estabilidade financeira, desportiva e pela expansão do clube para os Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP), países onde há muitas Académicas. Temos de promover essa aproximação entre as diferentes Académicas, isso é essencial para a divulgação da marca Académica, que é muito grande, reconhecida e atrativa. A Académica foi, e é, uma grande marca. Só em Cabo-Verde são 11 Académicas e, em breve, vamos apresentar algo relacionado os países dos PALOP. No primeiro ano estivemos centrados em resolver os problemas prementes que existiam, foi, no fundo, retirar o doente do coma e agora estamos nos cuidados intensivos para podermos, realmente, o mais brevemente possível, termos alta e conseguirmos concretizar a ambição que preenche o espírito de cada academista, que é ver a nossa Briosa na 1.ª Liga.
Continua a acreditar que é possível colocar a Académica na 1.ª Liga neste mandato?
Quando propus e falei desse objetivo, de colocar a Académica em três anos na 1.ª Liga, foi uma forma de nos exigir trabalho, porque se a pessoa pensa pequeno, não consegue dar o passo qualitativo que é necessário ser dado. Temos que pensar que conseguimos, que é necessário trabalhar diariamente para atingir esse objetivo. Não é uma promessa, é um objetivo que temos, que é aproximar a Académica desse patamar. O clube pode fazê-lo de várias formas. Logo, no imediato, pode fazê-lo arranjando uma fórmula ou uma “varinha mágica” para arranjar as coisas sem qualquer tipo de sustentabilidade, ou, pelo contrário, fazer tudo com sustentabilidade, é isso que nós estamos a fazer. Ou seja, pegar no clube, organizá-lo em termos de recursos humanos e em termos financeiros para que, depois, os resultados possam aparecer. Chegar e contratar jogadores não é suficiente. As pessoas que vêm para a Académica têm que ter a noção perfeita que este é um clube sério, que está a cumprir com as suas obrigações e os jogadores, por isso mesmo, têm que dar toda a sua dedicação à causa Académica, que atualmente passa por ajudar a recolocar o clube na senda da glória e história.
Como está, a nível financeiro, a situação?
A situação financeira, neste momento, falando da SDUQ, temos a noção que temos que pagar, segundo o plano, todos os meses cerca de 29 mil euros para pagar uma dívida total que ronda os três milhões de euros. Este valor terá que ser pago em 12 anos e meio. Depois temos que pagar salários e jogadores. Temos a noção as despesas que agora estão identificadas. O que é necessário? É necessário arranjar capital, que não temos, para investir nas infraestruturas que estão um pouco degradadas. É preciso um investimento forte.
Dia 2 de agosto há uma assembleia de credores do OAF, correto?
Estamos convictos e confiantes que dia 2 de agosto, data em que vamos ter a primeira assembleia de credores, neste momento está a decorrer a fase de reclamação de créditos dentro do OAF, será aprovado o plano de recuperação. Após isso, o clube e a sociedade ficam em excelentes condições para abraçar projetos mais ambiciosos com a entrada de investidores. Eu sempre defendi a criação de uma SAD. Todas as SDUQ estão a transformar-se em SAD. Entretanto vai sair uma nova legislação sobre a questão dos investidores, ou seja, será mais escrutinada a origem do investidor. Isso irá dar mais garantias aos sócios e adeptos de que não vai haver nenhuma aventura desmedida que coloque em causa o futuro do clube. Nós temos a questão do investidor ter de ser sempre minoritário, mas, penso, pelas reuniões e conversas que tenho tido, e não há nada de concreto, que há interesse em investir na Académica.
Esses investidores podem ser da região Centro?
Vamos trabalhar também para atrair possíveis interessados da região, mas, neste caso, os possíveis investidores não são de cá. Há pessoas do estrangeiro, de várias origens, que querem reunir informações e que têm feito perguntas, mas com os acordos de confidencialidade assinados não posso revelar mais.
A receita dos concertos dos Coldplay no Estádio Cidade de Coimbra… ajudou a amortizar a dívida total?
No ano passado não vendemos nenhum jogador. Essa receita dos Coldplay foi fundamental para nós. Neste caso ajudou à tesouraria do clube. Falamos de cerca de 300 mil euros, que foram logo aplicados para pagar vencimentos e dívidas. Grande parte desse dinheiro foi penhorado, por isso é que nós avançámos para a insolvência do OAF. Não estava nos horizontes fazer isso, mas a partir do momento em que penhoraram as contas ficámos sem condições para governar a casa. Declarou-se a insolvência, num verdadeiro estado de necessidade para tentar recuperar o dinheiro que nos foi penhorado. Foi atingido esse objetivo.
Qual benefícios pode trazer para a Académica esse plano de insolvência do OAF?
Para já, as contas não são penhoradas, esse é o primeiro benefício. Depois fica fixada a dívida e isso permite-nos gerir daí para a frente. Falamos de uma dívida enorme que foi crescendo. Se nós estabilizarmos a dívida e nos conseguirmos governar com aquilo que corresponde às nossas receitas acho que, nesse momento, estaremos a contribuir para a tal estabilidade e sustentabilidade da Académica. Isso vai permitir que o dinheiro que entra seja dinheiro para investir. Falo de investir para tirar lucro mais tarde, criando riqueza para elevar o clube. Só conseguimos fazer isso subindo a outro patamar, onde teremos maior visibilidade, apoios financeiros e receitas de direitos televisivos superiores.
Como poderia funcionar a entrada de um investidor no clube?
O investidor não deve chegar aqui com planos ou ideias que extravasam a racionalidade, ideias megalómanas. Deve chegar aqui e sustentadamente, essa é a palavra correta, fazer entrar dinheiro para, primeiro, criar uma equipa de futebol em condições possibilitando também corretas condições de trabalho, para os seniores e para a formação. Isso faz-se com a melhoria das infraestruturas, por exemplo, temos um campo que tem um tapete sintético com 15 anos e que está gasto, onde o futebol é praticamente impraticável. A Académica está em condições de cumprir os planos, é isso que desejamos, porque se não o fizermos corremos o risco de fechar portas.
O que poderá dar o clube, na sua opinião, ao potencial investidor?
Temos de dar ao potencial investidor as condições para ele investir e retirar rendimento disso, juntamente com o clube. É isto que nós estamos a fazer. Penso que estamos no caminho certo. Muitas vezes fala-se da insolvência e diz-se que a Académica está a fugir aos compromissos. Nós não temos condições para cumprir esses compromissos criados. A lei impõe que organizações e empresas que estão nestas condições têm que declarar insolvência, permitindo assim a sobrevivência caso existam condições, caso contrário é declarada liquidação e isso significa o fim. Se estão a aceitar o plano é porque a Académica tem condições para o cumprir. Penso que com isso estarão reunidas as condições para sermos apelativos e atrativos para alguém que queira investir na Académica.
Estando a ser executado o plano de insolvência. É possível avançar para a alteração do modelo societário e criar uma SAD?
Racionalmente é necessário perceber que, de facto, há sempre um risco num processo desta natureza. Poderemos avançar para uma SAD com uma cláusula de condição, porque se o clube ficar mesmo insolvente, isso passa a ser impossível, uma vez que o sócio maioritário tem que ser a Académica, ora, se for declarada insolvente deixa de existir e isso leva tudo por arrasto. O que estamos a fazer desde o início e irmos falando dos vários cenários. O cenário que está sempre em cima da mesa é que o plano de recuperação seja aprovado para podermos depois avançar com uma SAD. Logicamente que temos que deixar terminar esse processo, mas isso não quer dizer que não temos as coisas organizadas e isso não é impeditivo, sob condição, de apresentar um projeto de SAD, sempre condicionado ao resultado do processo do plano que está a decorrer.
Há interesse em investir na Académica?
Não há nada concretizado, mas existem perspetivas que isso venha a acontecer, inclusivamente com empresas da região Centro. Isso é um facto. Nas reuniões que tenho tido tem havido demonstração de interesse. É óbvio que se não tivesse que ser a Académica o sócio maioritário, a situação seria mais fácil, mas esse é o desafio e é esta a realidade, é para ela que temos que encontrar soluções. Já houve uma proposta, da outra lista, de uma investidora minoritária. Isso indica que é possível.
Voltando à parte desportiva. Podemos ainda esperar a chegada de caras novas para o grupo de Tiago Moutinho?
Claro que sim. Estamos a trabalhar com critério, sem pressa e sem perder a noção da nossa realidade. Conversamos com toda a gente, aqui não há preferência nenhuma em relação a ninguém. Existe interesse em jogadores quer preencham os requisitos que o treinador pretende para criar uma equipa de futebol, que pratique um futebol agradável e que tenha resultados. Falo e ouço toda a gente. Não fechamos as portas a ninguém.
A saída do médio David Brás foi uma opção técnica?
Só tenho que agradecer ao David Brás todo o seu academismo, profissionalismo e dedicação. Se nós escolhemos uma equipa técnica e uma organização para o futebol profissional, essas pessoas são pagas para tomar decisões. Eu responsabilizo-me, enquanto presidente da Académica, por todas as decisões que eles tomarem, mas eu tenho que deixar as pessoas trabalhar de acordo com as ideias que têm para o clube. Ninguém trabalha mal ou deseja o mal para o clube. Eu acredito sempre num trabalho sério de um profissional. O Tiago já demonstrou que é serio. O David Caiado, enquanto jogador, também e até agora a minha avaliação, da forma como está a trabalhar como diretor desportivo, é positiva. Espero que os resultados apareçam e estou convicto que vão aparecer. Há uma forma séria, dedicada e profissional de trabalhar. A saída do David Brás é sustentada numa decisão técnica. Tenho que acreditar nas pessoas que estão a gerir, desportivamente, o futebol profissional. O trabalho de um presidente tem que ser supervisionar.
O Diogo Ribeiro também não vai continuar. Também foi opção técnica?
É exatamente o mesmo. Excelente pessoa, mas não continua por opção técnica. A responsabilidade final é sempre do presidente, porque eu tenho que assumir, esta direção escolheu o técnico e o diretor desportivo, portanto assumimos as decisões deles como sendo as nossas. O Diogo é um excelente profissional, dedicado e um grande academista. São decisões técnicas.
Como avalia a competitividade desta Liga3?
O nível entre a Liga 3 e a 2.ª Liga, na maioria dos clubes, é muito aproximado. Basta olhar para os clubes que subiram na última época, Oliveirense e Torreense, que se mantiveram de forma tranquila. Não há um desfasamento muito grande. Recordo que nós, na Taça de Portugal, perdemos aqui com o Tondela apenas nos penáltis. Fizemos frente a essa equipa e com justiça teríamos eliminado o Tondela, pois ficou um penálti por marcar a nosso favor. Falamos de um nível muito alto na Liga 3.
Como estão as relações com a AAC? Pode clarificar o funcionamento do protocolo?
Nós temos excelentes relações com a Direção-Geral da AAC e com a Câmara de Coimbra. A questão do protocolo com a DG/AAC diz que se a Académica perder a maioria ou for alienada, quem nos cedeu o símbolo e o nome, que foi a AAC, pode retirar-nos o nome e o símbolo, mas isso só acontece se a AAC/OAF perder essa maioria.
Nos escalões de formação a Académica é das poucas equipas que compete, a nível nacional, na 1.ª Divisão nos escalões de iniciados, juvenis e juniores. Que importância tem este dado para a direção?
A Académica é um clube que, apesar de estar na situação em que está, a nível desportivo e financeiro, tem uma marca com uma dimensão que consegue, mesmo estando na Liga 3 a formação principal, ter as equipas da formação nos escalões competitivos mais elevados e a disputar as fases de campeão. Só uma marca muito forte, como é o caso da Académica, é que é capaz de resistir. Se fosse outro clube já tinha, se calhar, fechado as portas. Obviamente que a formação é muito importante para o projeto. Ter essas três equipas nas respetivas 1.ª Divisões mostra que continuamos a trabalhar muito bem no futebol de formação, daí não ter havido nenhuma rutura nem nenhuma mudança abrupta, foi feita uma transição suave. Fizemos umas mexidas e ajustámos algumas coisas. Só estando no nível competitivo máximo é que poderemos ter atletas da formação que possam integrar os quadros do futebol profissional, só assim é possível integrar um futebol de nível alto como é também este da Liga 3. Temos que ter uma formação com um grande nível competitivo.
Esta época alguns dos jogadores com idade sub-19 já trabalharam com a equipa sénior…
Nós tivemos vários jogadores com a idade de júnior a trabalhar no plantel principal. Um deles, o Stitch, fez praticamente a época toda a titular. O “Tusso” foi uma aposta final do nosso treinador e o Di Cardoso foi entrando, mas não foi utilizado de uma forma tão consistente porque teve uma lesão. Há ainda o Bernardo que fez vários jogos a titular na baliza, portanto diria que estamos a trabalhar bem na formação e é isso que é preciso. Vamos sempre lutar, com a ajuda de excelentes técnicos, staff e dos pais, para estar no nível competitivo máximo. Nós também nos preocupamos com a parte da formação académica, acompanhamos todo o trajeto escolar dos jogadores e isso é muito importante, mas o papel dos pais é essencial. É muito importante que seja uma comunidade e que esteja interligada: clube, pais, jogadores, técnicos, staff, administrativo e diretivo. Só assim funcionará bem.
Foi noticiado o interesse do Sporting no Di Cardoso. O jogador pode sair?
Esse interesse existe, de facto. Como é que a Académica pode competir com o Sporting? Não podemos. Temos que pensar em termos de investimento. Se o jogador for, efetivamente, para o Sporting pode-se rentabilizar e a Académica vai tirar rendimento desse crescimento do atleta.
Poderá concretizar-se esse negócio?
Eu acho que está em excelentes condições de se concretizar. Será bom para a Académica e para o jogador e, espero, que também seja bom para o Sporting. Tenho que dizer que o Sporting foi um dos credores da Académica que votou a favor do plano e prescindiu de receber esse valor, falamos de cerca de 150 mil euros. O Sporting disse que a Académica jamais poderia acabar e que nunca iria contribuir para o fim da Académica, porque é um clube que é necessário ao futebol português, ao nível mais elevado.
O que sentiu ao escutar isso?
Só revela a excelente marca que é a Académica. Tenho que a agradecer a todas as pessoas que contribuíram para que a Académica tivesse uma história tão rica. Queremos dar-lhe condições para que o futuro seja ainda melhor.
Já anunciou que o futebol feminino será uma das apostas. Como vai avançar esse objetivo?
Se nós subirmos à 2.ª Liga temos que ter futebol feminino para podermos ser certificados com cinco estrelas, somos obrigados a isso. O futebol feminino no nosso clube, além de eu o defender porque acho que está em crescimento e a FPF também dá apoios para isso, é algo que tem que, efetivamente, avançar na Académica. Vamos defender isso. Vamos também criar, a nível lúdico, uma equipa do Walking Football, algo que já é promovido pela AF Coimbra. Há pessoas que querem criar uma equipa e a Académica vai ajudá-las, sobretudo para promover a prática do desporto.
E a ligação à AAC/SF, como está?
Queria deixar uma nota que me parece importante. Tivemos um ano muito difícil, com algumas situações às quais não demos a devida atenção. Agora estamos preparados para avançar, e para tentarmos resolver, de uma vez por todas, esta questão da coexistência entre a AAC/OAF e a AAC/SF. Acho que a situação atual não contribui para o melhor futuro do futebol da Associação Académica de Coimbra.
O regresso da equipa B sénior masculina é também um dos desígnios?
A equipa B vai integrar jogadores da nossa formação que chegam ao escalão sénior e que não tenham saída, no imediato, para outros clubes. Vai também contar com atletas do chamado sistema “pay to play” (pagar para jogar). É um projeto financeiro que vai começar no Campeonato Distrital. Essa equipa terá essa dupla intenção.
Acha possível, por exemplo, partilhar a utilização do Estádio Cidade de Coimbra com outra equipa que jogue numa prova nacional sénior?
Neste momento não é possível. Nós temos um contrato até 2024, em que somos nós que exploramos o estádio. Temos que ser nós a gerir a utilização e se alguém quiser utilizar, isso terá sempre que ser negociado. Não vislumbro, a breve trecho, que isso possa vir acontecer. Estou convicto, até pelos contactos que temos mantido com a autarquia, que a exploração do estádio está a ser negociada para ajustarmos alguma alteração que seja benéfica também para a Câmara de Coimbra, que é a proprietária do estádio. Estamos a iniciar as negociações para a criação dessa nova relação contratual que, acredito, vai ao encontro das nossas expetativas.
De primeira (responda com a primeira palavra que associar aos termos/expressões)
Académica– paixão
Academia Briosa XXI-viveiro
Estádio Cidade de Coimbra-casa
Estudantes-origem
Coimbra– bela
“Académica com Futuro” – missão
O presidente da Briosa deixou ainda uma mensagem aos adeptos e sócios da Académica. O vídeo está disponível no Facebook do DIÁRIO AS BEIRAS.






