Nesta casa também reside a esperança
Ainda se recorda da primeira família que a casa da Acreditar recebeu: uma menina com uma doença oncológica, vinda da Madeira com o pai.
“Estiveram aqui ainda algum tempo devido uma doença complicada. A mãe tinha ficado na Madeira com os outros filhos”, lembra Brigitte Seixas, gestora da casa de Coimbra da Acreditar – Associação de Pais e Amigos de Crianças com Cancro.
A menina fez-se mulher e atualmente está a iniciar os estudos de Medicina na Universidade da Madeira. Esta é a prova de que naquela casa (que hoje celebra 13 anos) reside, sobretudo, a esperança de melhores dias.
Dentro daquelas quatro paredes, destinadas a responder à necessidade de alojamento das famílias residentes fora da região do hospital onde os seus filhos são acompanhados, há laços que se criam e que dificilmente se quebram. Porque é um espaço onde pais, mães, filhos, encontraram uma família sem a qual não teriam sobrevivido ao sofrimento e à dúvida permanente sobre o futuro.
“Quando se fecha a porta, o que permanece deste lado não é a doença, mas a família, o companheirismo”, refere a responsável.
Desde que abriu portas, em 2010, a casa recebeu quase mil famílias – precisamente 981 –, para dar apoio a crianças e cuidadores que têm de sair da sua área de residência para fazer tratamentos.
Vive-se com “a maior normalidade possível”
Com capacidade para acolher 20 famílias em simultâneo, a instituição recebe crianças oriundas de vários pontos do país – no ano passado, as maiores taxas de permanências foram de famílas residentes em Castelo Branco, Guarda, Açores, e Lisboa. No entanto, acolhe também famílias dos PALOP e, atualmente, duas crianças com cancro fugidas as guerra na Ucrânia.
Apesar de a maioria dos casos estar relacionada com doenças oncológicas, a casa está disponível para crianças com todos os tipos de patologias. “É importante dar esta resposta a todas as famílias da região que se deslocam a Coimbra e que precisam de acompanhar as crianças nos mais diversos tratamentos que vêm fazer”, refere Brigitte Seixas.
Ali vive-se com “a maior normalidade possível”. Cada quarto, destinado apenas a uma família, tem a sua casa de banho privativa. Os espaços de convívio, partilha e apoio mútuo são muitos: a cozinha comum onde as famílias preparam as refeições diárias; salas de estar a pensar nos pais, nos mais pequenos e ainda outra para os jovens, espaços exteriores para brincar.
“Esta é a casa deles, até porque a média de permanência anda entre os 40 ou 50 dias, mas há famílias que estão connosco há quase dois anos”, adianta a responsável.
Arsénia Delgado entrou naquela casa com o filho Leandro, na primavera de 2021. Em Cabo Verde deixava uma filha, família e amigos que eram a sua rede de apoio.
“Foram momentos muito dolorosos e muito tristes. Mas aqui encontrei outra família”, contou. E foi essa que também lhe forças para cuidar e acompanhar o filho, hoje com cinco anos, diagnosticado com leucemia. Ontem, o pequeno Leandro corria pelos corredores da casa, já quase recuperado.
“Está na fase final de tratamentos”, diz a mãe, enquanto carrega ao colo a sua bebé de quatro meses, que nasceu em Coimbra e cujo primeiro lar é a Acreditar.
“Todo o sofrimento trouxe também coisas muito boas”, sorri Arsénia.
Mónica concorda e também sorri. A estagiária do curso de Animação Sociocultural é “Barnabé”. Na Acreditar, os Barnabés são todos aqueles que receberam o diagnóstico de cancro até aos 25 anos.
“Tive leucemia quando tinha cinco anos e recordo-me de todo o período em que estive internada e em tratamentos”, conta. Agora, com 19 anos, quer fazer parte da vida daqueles que se confrontam com a doença demasiado cedo.
“Além de lhe querer ajudar, quero lembrar-lhes que eu também tive cancro. E sobrevivi”, lembra.


