Raimundo Oliveira toca ao ritmo da natureza
Se circular pela estrada da Serra da Boa Viagem que liga esta a Buarcos através do Cabo Mondego e, de repente, lhe parecer ter ouvido um “break” de bateria vindo do exterior da sua viatura, é porque é mesmo o som de uma bateria proveniente do exterior. Que, à medida que vai serpenteando a via panorâmica e se aproxima da marginal oceânica buarcosense, aumenta de volume.
O “fenómeno” tem uma explicação natural. Raimundo Oliveira, de 55 anos, é brasileiro e vive em Portugal há cerca de 20 anos, os últimos quatro na Figueira da Foz. Trabalha num restaurante, tendo a seu cargo os grelhados. Pelo menos uma vez por semana, quando não consegue que sejam duas, instala a sua bateria na estrada que dá acesso à antiga fábrica de cal, no Cabo Mondego, e ali ensaia as batidas, horas a fio. Sempre no mesmo sítio, há três anos.
“Este é um lugar bom para ensaiar. Estou junto à natureza, perto do mar e o espaço é amplo. Sinto-me mais à vontade”, esclareceu o baterista autodidata ao DIÁRIO AS BEIRAS. É que, ressalvou, “lá em casa, não dá para treinar”. Vive num apartamento e, por muito melómanos que os vizinhos possam ser, aquele não é, decerto, o local adequado para se tocar um instrumento de percussão.
Auriculares nos ouvidos, baquetes nas mãos, pé no pedal do bombo. O resto é música, ao ritmo da natureza, que, para Raimundo Oliveira, é uma orquestra completa a interpretar uma peça nunca escrita, na qual o som das ondas do mar marca a cadência. A sua concentração é imperturbável: tem de se lhe fazer sinal para parar e dar início à conversa, à qual acede de imediato, com simpatia e serenidade.
Músico sem banda
Raimundo Oliveira comprou a bateria há três anos. Afirma que sempre gostou deste instrumento. Não pertence a nenhuma banda, mas não rejeita a possibilidade de poder vir a pertencer a uma. “Se aparecer uma banda, quem sabe…”.
Os únicos contratempos com que o baterista Raimundo se depara são aqueles que percute no instrumento, porque tudo o resto é tudo aquilo de que gosta. Quem passa por lá ou se dirige ao sítio do “concerto” a solo convidado pelo som que se espalha pelo ar misturado com maresia, pára, olha, escuta. E não só.
“Quem passa aqui, tira fotos, fala comigo e diz que acha interessante estar a tocar sozinho, aqui, na natureza”, afirmou o baterista em regime de autoformação. Raimundo Oliveira é natural de Fortaleza, capital do estado brasileiro do Ceará.


