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Uma porta aberta para os sem-abrigo

31 de às 09h14
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DB/Foto de Ana Catarina Ferreira

Pouco passa das 17H00 e à porta estão meia dúzia de pessoas, perfiladas para jantar na Casa Dignidade. Entram minutos depois, quando um dos voluntários os chama e prontamente assinala os seus nomes na lista de cerca de meia centena de inscritos para o jantar, colocada numa mesa junto à porta.
Do hall de entrada acede-se logo à sala de jantar, um espaço acolhedor com várias mesas compridas, cobertas por toalhas com quadrados vermelhos e brancos.
A comida já vem confecionada, em cubas grandes, pronta a ser servida pelos voluntários – por norma são dois – que acompanham o jantar e tratam das louças. Vemos entrar o Rui, a Fátima e o Igor – bem conhecidos na casa, os primeiros; o último vem pela primeira vez e pergunta com alguma ansiedade se está inscrito para os restantes dias da semana.
“No inverno, quando está frio, vêm mais cedo e podem ficar, mais confortáveis, numa sala que disponibilizamos para eles usarem”, refere Dalila Salvador, coordenadora na Fundação ADFP.

A funcionar todos os dias

A Casa Dignidade, projeto da Fundação ADFP – Assistência, Desenvolvimento e Formação Profissional, abriu as portas no dia 27 de abril de 2017, na rua do Brasil, em Coimbra, com o objetivo de servir refeições quentes, ao jantar, a pessoas da cidade em situação de sem-abrigo ou de pobreza extrema. Desde que serviu os primeiros jantares nunca fechou, nem um dia.
De resto, essas são mesmo as premissas que levaram à criação desta casa, inserida no projeto Sem- –Abrigo Zero da Fundação ADFP, a única resposta social na cidade que tem estas caraterísticas: ser um refeitório com teto onde as pessoas podem jantar sentadas, evitando que comam na rua, a funcionar todos os dias, sejam fins de semana, feriados ou datas festivas, como o Natal.
“Sabíamos que outras valências semelhantes não funcionavam à hora de jantar – só serviam almoços – e encerravam aos fins de semana e feriados. Para colmatar essas lacunas, avançámos com este projeto”, acentua Jaime Ramos, presidente da Fundação ADFP. As pessoas sem-abrigo que vão jantar à Casa Dignidade – onde estão em permanência uma psicóloga e uma assistente social – têm acesso também a cuidados de higiene pessoal, como ir à casa de banho ou lavar as mãos antes da refeição, e podem tomar um banho por semana. Recebem roupa e calçado, sempre que precisam, e também agasalhos e cobertores para dormir. Ali é prestado ainda apoio psicossocial e feito o encaminhamento para outros serviços sociais, económicos e médicos.

1800 refeições por mês

A Casa Dignidade é um projeto social, filantrópico, que nasceu da vontade de Jaime Ramos. Embora única, esta valência não conta com nenhum apoio, nem da Segurança Social nem de nenhum outro organismo.
Atualmente, em Coimbra, a Casa Dignidade serve mais de 420 refeições por semana – cerca de 1.800 refeições por mês – a pessoas sem- -abrigo. Diariamente estão inscritas meia centenas de pessoas, número que aos fins de semana aumenta para um limite máximo de 55, explica Dalila Salvador.

Prevenir a situação

A Casa Dignidade é uma porta aberta para os sem-abrigo? “É uma porta aberta para todos. Para as pessoas sem-abrigo e para as pessoas que de alguma forma estão em risco de virem a ser sem-abrigo, porque em termos financeiros estão numa situação muito precária. Tentamos prevenir que caiam na situação de sem abrigo ajudando com as refeições”, frisa Dalila Salvador.
Entre os utentes da Casa Dignidade contam-se famílias. Neste momento, há um casal com um bebé e um senhor que tem a mãe doente. E algumas pessoas vão jantar àquela casa desde que abriu as portas, há seis anos.

Palavras amigas

Raul Sousa é um dos voluntários que costuma ajudar na Casa Dignidade. Já conhece bem os utentes e sabe as suas preferências gastronómicas. “Venho sempre que tenho disponibilidade. Gosto de ajudar e gosto de vir por eles, pelos utentes. Para além das refeições, damos palavras amigas. É o que eles precisam, quem os acolha, quem fale com eles, quem os ouça”, sorri Raul Sousa.
É justamente o ambiente, mas também a comida, que agrada a Fátima, antiga utente dos jantares da Casa Dignidade que agora regressou, após passar um período com a família. “Não resultou e agora estou a viver com o meu ex-marido”, diz Fátima, enquanto come a canja, o arroz de atum com legumes e a fruta, e conta que, devido a um problema de saúde, “leva todos os meses uma injeção, para não se enervar”.

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