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Opinião: De Kirill a Zen Ze-kiun

23 de às 17h52
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A União Europeia divulgou recentemente um conjunto de pessoas sancionadas no âmbito do combate em curso à oligarquia que sustenta e apoia o governo do atual autocrata russo. Entre os sancionados, conta-se o Patriarca da Igreja Ortodoxa russa, Kirill, que se tem destacado pelas suas declarações públicas de apoio à guerra em curso. A aliança entre estes dois homens não deixa de suscitar alguma perplexidade, embora seja naturalmente simplista e despropositado confundir qualquer um deles com
a instituição que, contingentemente, representam neste momento. Não é adequado confundir Putin com o povo russo, nem Kirill com a Igreja russa.

As relações promíscuas entre lideranças religiosas e lideranças políticas não são naturalmente de agora. No cristianismo, apesar de os próprios companheiros iniciais de Jesus o identificarem com o Messias (aguardado enquanto libertador do povo judeu do jugo a que estava sujeito sob o império romano) e portanto identificarem a liderança religiosa com a liderança política e militar, rapidamente ficou claro que para Cristo havia uma separação clara entre essas vertentes: “Dai a César o que
é de César e a Deus o que é de Deus”.

De acordo com alguns teólogos, a traição de Judas Iscariotes enquadra-se nesta discussão e na incompreensão, entre os próprios apóstolos, desta distinção crucial, que está na génese da moderna separação entre Estado e Igreja. Assim, de forma inicialmente incompreensível para os primeiros cristãos, o libertador esperado não só não tem qualquer intervenção visível na resolução do quadro político, como termina até miseravelmente crucificado como o mais reles dos escravos. Ontem como hoje, tal não é fácil de digerir. A partir daí, o cristianismo acabou por se transformar numa força que, precisamente pela sua atenção aos mais fracos, corroeria o império romano e levaria à sua queda (depois de o império, assente na lei do mais forte e numa “Pax romana” imposta de forma violentíssima, se ter “convertido”). Este padrão tem-se repetido ciclicamente, com conhecidas
intervenções e interações mútuas entre a Igreja e a política, esquecendo frequentemente a admonição fundacional sobre a
necessária separação, mas resultando na própria noção de Estado, tal como a conhecemos hoje.

Contudo, mesmo as lideranças deficientes da Igreja (e são-no sempre, na sua humanidade) não conseguem impedir que esta anuncie, reflita e até leve à prática a mensagem de Cristo, extraordinariamente corrosiva para os poderes políticos que queiram impor a lei do mais forte. Esta opção preferencial pelos mais fracos (que o papa Francisco, fielmente, repete ad nauseam) tem sistematicamente ganho os múltiplos embates da história, até contra muitas lideranças eclesiais, politicamente empenhadas.
Bem diferente de Kirill surge, como figura de líder religioso, o cardeal chinês Joseph Zen Ze-kiun, bispo emérito de Hong-Kong. Este extraordinário prelado, sem papas na língua, tem sido uma das vozes mais destacadas em defesa dos direitos humanos e da liberdade religiosa no pequeno enclave agora inserido num império onde as religiões são controladas pelo Estado
(incluindo uma Associação “Católica Patriótica”).

A própria cúria vaticana e o papa não têm sido poupados às suas críticas livres e desassombradas sobre a gestão demasiado “diplomática” do dossier chinês. Aos 90 anos, foi preso no passado dia 11 de Maio pela polícia de Hong Kong, e depois libertado sob fiança, ao abrigo da “Lei da República Popular da China sobre Salvaguarda da Segurança Nacional na Região Administrativa Especial de Hong Kong”, por suspeita de “conluio com forças estrangeiras”. Em causa está a sua colaboração com a associação 612 Humanitarian Relief Fund, entretanto ilegalizada, e que prestava apoio humanitário aos detidos no âmbito dos protestos de 2019 contra a lei de extradição para a China. Terá o venerando cardeal tirado a César? Ou terá oferecido a Deus?

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