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Opinião: A importância da História

23 de às 18h16
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Francis Fukuyama ficou conhecido pelo seu livro de 1993, “O Fim da História”. Claro que a História não acabou: acelerou-se desde então. Nos seus livros seguintes, dedicou-se a analisar o falhanço da sua previsão. Um deles intitula-se “Identidades”, com o subtítulo “A Exigência de Dignidade e a Política do Ressentimento”. Curiosamente, Fukuyama apresenta duas soluções para o caos civilizacional actual: a existência de um serviço militar ou cívico obrigatório, e um especial foco no ensino da própria História em cada nação.

A narrativa histórica, que inclui a língua materna, é a fonte principal da nossa identidade. Permite o entendimento dentro
da cada nação e reforça as crenças pelas quais damos a vida com altruísmo. Damos a vida pelos colectivos identitários: pela
família, pela religião, pela pátria. Neles incluímos os próximos, os antepassados e ainda aqueles que hão-de
vir. Todos estes colectivos se baseiam em narrativas – familiares, religiosas, patrióticas os mesmo clubísticas – assumidas, muitas vezes escritas, mas em geral ficcionadas.

As fontes da nossa identidade também nos dão liberdade, pois podemos escolher a religião, a pátria e mesmo a família ou o clube de futebol. Esta escolha pode assumir vários nomes, entre os quais a conversão. Pode levar-nos a grandes
mudanças e acompanhamos nelas. Podemos também abdicar ou, temporariamente, considerar outras identidades e alianças. A
ideia de um inimigo comum ou o futebol estão aí para ajudar esses malabarismos.

Entretanto, a História, a Arqueologia e a Antropologia estão a refazer as narrativas conhecidas. Aquilo que, nelas, existe de
ficção, vai-se corrigindo aos poucos, mas raramente abalam os seus fundamentos. As pessoas mais críticas e informadas podem aceitar as correcções, mas sempre fica algo inexpugnável que cimenta os colectivos. Sem as crenças comuns, talvez não pudéssemos cooperar. Porém, à medida que as velhas comunidades vão acolhendo etnias e povos diferentes, as narrativas patrióticas, religiosas e familiares são também consideradas de outros pontos de vista. Por exemplo, um Rei ou outro herói pode ser visto da perspectiva daqueles que ele subjugou, tanto na sua terra como nos territórios que invadiu. Aí, perante os mesmos factos, a História e as crenças que ela fundamenta serão outras. Se forem amplamente difundidas em situação de crise, o cidadão comum sentir-se-á perplexo e pronto a contradizer as suas crenças, com prejuízo da comunidade que as partilhava.

Todas as histórias das guerras civis apontam para uma inversão radical das crenças comuns. Vale então a pena ensinar a História, como Fukuyama propõe? A resposta não é simples. Por um lado, uma narrativa histórica que glorifica que os vencedores, sem considerar o ponto de vista dos vencidos e subjugados, reforça os nacionalismos mais fanáticos. Por outro lado, a existência de narrativas históricas inconciliáveis, dentro da mesma comunidade, aumenta os conflitos e prejudica a cooperação. A questão é delicada mas necessita de atenção. Não sei se os professores de História já se aperceberam da sua importância. Mas são eles que terão de ajustar o ensino, sabendo que estão a trabalhar pela paz

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