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Opinião: “Desenrascanço”

01 de às 12h19
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Na semana passada participei num colóquio promovido pela IE Business School de Madrid onde os diversos intervenientes eram profissionais de vários sectores com experiência em África. Durante essa manhã de debates, retive uma frase que achei interessante: não há maior empreendedor por natureza do que o Africano. E tendo a concordar com ela. O Africano, de uma forma geral, depara-se constantemente com dificuldades as quais tem que ultrapassar diariamente. A falta de água potável, cortes constantes de fornecimento de energia, inundações, secas, entre muitas outras maleitas faz com que muitos Africanos sejam resilientes e bastante criativos.
Claro que o generalizado baixo nível de educação faz com que muitas vezes esta criatividade não crie riqueza. Mas desenrasca. O desenrascanço, essa característica tão valorizada pelos Portugueses e que, ao contrário do que muitos pensam, não é um exclusivo nosso. É uma qualidade que se ganha após executar tarefas, com sucesso, sem os recursos adequados. Próprio de qualquer país subdesenvolvido.
Mas voltando à criatividade Africana. As carrinhas de transporte público, uma espécie de “mini-bus”, carinhosamente apelidadas de Tró Trós, que circulam por Accra, são um bom exemplo. A maior parte destes veículos já deveria estar na sucata há bastante tempo mas continua a circular, imagino eu muito à custa de brilhantes mecânicos de automóveis que nunca desistem, mesmo não tendo peças sobresselentes à sua disposição. Mas inventa-se, insiste-se e no final lá andam os Tró Trós a prestar um serviço aos cidadãos. Noutro patamar mais interessante, um dos vários casos de sucesso que merece ser realçado é o do “M-Pesa”, serviço móvel de pagamentos, similar ao nosso “MBway”. Esta tecnologia foi desenvolvida por uma empresa 100% Queniana, começou a ser utilizada em 2007 (!) no Quénia. e hoje está difundida um pouco por toda a África subsariana, tendo altíssimas taxas de utilização pelas populações.
Resta esperar que o desenrascanço Africano combinado com a crescente democratização no acesso à tecnologia contribuam para diminuir alguns dos profundos problemas com que o continente se debate diariamente.

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