Opinião: “A-S-I é possível poupar no combustível”
Esta semana, o preço dos combustíveis voltou a aumentar expressivamente, com a gasolina a ultrapassar os dois euros por litro. Para muitos de nós, este é um problema concreto, de grande relevância e de impacto imediato. Isto deve-se ao facto de a nossa vida e a nossa mobilidade estarem organizadas com base no transporte rodoviário e, em especial, no automóvel particular com motor de combustão interna. O automóvel é uma máquina admirável e um modo de transporte muito conveniente. Não é o melhor modo em todas as situações, mas há muitas em que é (praticamente) o único possível. Neste contexto, como pode cada um de nós melhorar a sua mobilidade, sem perturbar o seu quotidiano e reduzindo os gastos mensais com combustível?
Cada vez mais cidadãos em todo o mundo seguem as recomendações da estratégia A-S-I. A sigla A-S-I vem de “Avoid&Reduce-Shift-Improve” – que pode ser traduzida para português como “Evitar&Reduzir-Mudar-Melhorar” – que é uma abordagem para a adoção de comportamentos sustentáveis, que envolve três passos distintos, mas complementares, que descrevo abaixo. Teve origem na Alemanha, nos anos 90, nos estudos sobre transportes e, desde então, tem sido aplicada em diversas áreas como forma de reduzir impactos ambientais através de comportamentos mais conscientes.
A primeira recomendação “Avoid&Reduce” (“Evitar&Reduzir”), que é a mais importante e a de maior impacto, diz respeito à redução das necessidades de nos deslocarmos. Para os Governos e Municípios, isto implica atuar sobre a localização das atividades económicas e sobre o planeamento urbano, construindo cidades mais sustentáveis e inteligentes, de modo a tentar reduzir as distâncias pendulares casa-trabalho/escola-casa e as necessidades de transporte. Para cada um de nós, implica uma profunda reflexão sobre uma decisão fundamental, que é a localização da nossa residência. O local onde vivemos tem uma influência significativa nas nossas necessidades de deslocação e na nossa dependência (ou não) do automóvel. Assim, na altura de procura de casa, a localização assume um papel preponderante – devemos pensar i) na distância que nos obriga a percorrer até ao local de trabalho, e ii) se, na sua envolvente, existem equipamentos, serviços e comércio que usamos no dia-a-dia (como café, padaria, minimercado, ginásio, etc.). Ou seja, será possível aceder a pé a estes serviços, sem necessidade de recorrer a modos motorizados de transporte?
Não sendo possível reduzir as necessidades de deslocação nem as distâncias de viagem, então devemos tentar adotar a recomendação seguinte – “Shift”(“Mudar”) – que está relacionada com a eficiência das deslocações que efetuamos. Será possível realizar algumas dessas viagens através de modos mais eficientes e menos poluentes do que o automóvel privado? Note-se que um veículo ligeiro pesa cerca de uma tonelada (e um SUV ronda as duas toneladas!) e que na maioria das vezes é usado para transportar apenas o próprio condutor, ou o condutor e um passageiro (pesando, em média, 75 quilogramas). Esta mudança – para a eficiência, a sustentabilidade e a poupança! – tem vindo a ser progressivamente facilitada por políticas públicas de promoção dos transportes públicos e da abrangência da rede de ciclovias, e pela introdução de sistemas de bicicletas e trotinetas partilhadas, mas depende essencialmente da nossa decisão individual.
O último passo a seguir – “Improve” (“Melhorar) – em alternativa ou em complementaridade com os anteriores, passa pela adoção de tecnologias inovadoras, relacionadas com a eficiência do veículo em si. Ou seja, diz essencialmente respeito à transição para a mobilidade elétrica e à utilização de veículos “limpos”, híbridos ou elétricos, quer nos transportes públicos quer na mobilidade individual. No caso do leitor(a) estar a ponderar a compra/troca de automóvel, as sete razões lógicas para optar por um híbrido ou elétrico que apontei num artigo anterior (disponível online em: https://www.asbeiras.pt/2021/06/opiniao-7-virtudes-dos-veiculos-eletricos-e-o-futuro-da-humanidade/) mantêm-se válidas e foram até reforçadas (desde a sua publicação).
Esta abordagem A-S-I, que cada um de nós pode aplicar na sua vida, é também uma base para as políticas de transporte implementadas pelos Governos e Municípios. Naturalmente, quanto mais as nossas próprias decisões e ações estiverem alinhadas com as políticas públicas, melhor. De que está à espera para poupar e ser mais eficiente?


