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Opinião: “À Mesa com Portugal – Inferno, Purgatório e Céu”

17 de às 09h30
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Vivemos com alguma inclemência com a alimentação. Queremos encontrar o Céu, mas na maioria das vezes fritamos no Inferno ou remoemos no Purgatório. Sentimos o sabor agridoce do pecado pelo muito que comemos ou, simplesmente, pelo que comemos. Em regime alimentar permanente, queremos à força encontrar o ponto de equilíbrio que nos permita aliviar da culpa.
Estamos em guerra com o que comemos. Isso é certo. Regateamos mentalmente a quantidade de comida que comemos. Hesitamos na segunda dose, comemos devagar e pausadamente para que a quantidade não seja a que desejávamos. Inventamos truques para evitar o exagero. Compramos produtos que nos tiram a fome ou alimentos que nos saciam sem necessidade de tanta quantidade. Soluções não faltam. É um Purgatório constante, aquele em que vivemos. Eu cá atrevo-me a dizer que nos falta sentir a fome. Se temos tanta dificuldade em lidar com a abundância porque não regressar ao ponto da fome para perceber o que devemos ou não comer? Sentir o apetite e evitar comer por repetição, pelo hábito, pela refeição que marca a hora.
Mas não é só a abundância que nos faz estar em guerra com o que comemos. Também sentimos culpa pelo que escolhemos comer. A proteína animal pesa-nos pelo sofrimento que infligimos aos animais. Mas é claro que neste capítulo, aflige-nos muito mais alguns animais do que outros. Entre a vaca e a galinha, sacrificamos mais facilmente esta última como se a sua morte não pesasse tanto na escala do sofrimento animal.
Mas, seja de maneira for, lá vem a culpa e logo estamos com um pé no Inferno. De comermos as vacas, as cabras, as ovelhas, o porco. É uma mágoa que arrastamos junto à nossa moral e ética. De tal modo que nos esquecemos como estes são temas discutidos desde a Antiguidade Clássica.
Talvez a solução passe por recusarmos a abundância. Aquela que está em todo o lado, da publicidade às lojas. Aquela que queremos trazer pela casa para encher o frigorífico e a despensa como se não houvesse amanhã. E não, não precisamos de inventar mais para comermos mais. Não precisamos de andar a jogar às escondidas com a comida até ela apodrecer sem remédio no frigorífico. Não precisamos fugir aos alimentos que nos arrastam a alma para as profundezas do Inferno. Precisamos entender porque comemos. Qual a razão de nos alimentarmos e como escolhemos o que comemos. Para isso, nas nossas escolhas necessitamos de entender o valor dos alimentos para além da produção intensiva. Se o fizermos não precisamos dos truques da moda para chegarmos ao Céu. A viagem será gratuita e sem pecado.

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