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Opinião: “SNS – entre a sala de espera e o olho da rua”

18 de às 09h30
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A memória dos humanos tem um maravilhoso condão. Resgata para o amanhã a lembrança das bem-aventuranças de ontem, e deixa pelo caminho as impurezas da existência. Por vezes demora. Recordo ainda as palavras azedas (insultuosas, algumas) dos tenazes defensores do “orçamento mais à esquerda de sempre”, furiosos perante o chumbo na AR de tão fraco projeto. Mas tenho a esperança de que, aos que de esquerda possam ser, não se lhes tenha esgotado o capital de indignação, porque dela irão estar muito necessitados para recusar o que elegeram.
Naqueles dias eleitorais calhou-me por tarefa apresentar alternativa a governações que levariam serviços públicos essenciais a um inevitável ponto de rotura. Como não sou dotado de qualidades divinatórias, a antevisão do descalabro do Serviço Nacional de Saúde, que apresentei a debate, correspondia à realidade descrita pelos médicos da FNAM e da Ordem, os enfermeiros do SEP, os trabalhadores do SUCH, administradores hospitalares. Os problemas identificados, que não impediram os trabalhadores do SNS – e só os trabalhadores do SNS – de responder à chamada na ainda recente crise sanitária, eram e são os da desvalorização das carreiras, dos baixos salários, das precárias condições de trabalho, do acosso exterior visando o esvaziamento do SNS daquilo que ali é o bem mais precioso: os profissionais de saúde.
O governo insiste em falar de “valores/hora”, de “conjuntura”, de “negociação”, bastando ouvir qualquer dos protagonistas do “outro lado” para perceber que a negociação não existe, que os valores são pretexto, que a conjuntura é resultado de um prolongado processo de desmontagem do SNS (agora com a novidade de impedir que se nasça em segurança). Trata-se de um plano já experimentado em galpes, cêtêtês, telecomes, édêpês, brisas e tápes, que viria a dar abundante lucro aos beneficiários (e participantes) do esbulho. No caso do SNS não foi tão rápido, mas a paciência não é recurso escasso para quem se orienta nas varandas do poder que estão viradas para as avenidas da Bolsa. Nem sequer a dimensão simbólica foi negligenciada: por todo o lado se erigiam estátuas ao “fundador do SNS”, à sombra das quais se decidiam as fusões hospitalares, o subfinanciamento, a municipalização, as externalizações todas que pudessem significar a falência do Serviço.
Há muito – e na saúde desde Correia de Campos – que se sabe que a retórica “de esquerda” é o mais eficaz instrumento das políticas de direita. Anunciam-se medidas, faz-se de conta, leve o tempo que levar. Não é de um dia para o outro que surge aquilo que eu mesmo vivi no dia de ser utente (n.º 30543395) de pulseira amarela das Urgências dos CHUC. Às 22h30 daquele recente 9 de maio, cinco horas depois da admissão, uma médica dirigiu-se aos presentes na sala de espera das Urgências e avisou: “quem não se sentir muito mal vá para casa e volte amanhã. Só temos equipa para casos muito urgentes e quem ficar vai estar muito tempo à espera!”. “E otorrino?” – perguntei. “Otorrino encerrou às 20h00. Ninguém o avisou?”. Não, ninguém me tinha avisado. Minto: avisaram-me a Ordem dos Médicos, a FNAM e o SEP, de que as urgências dos CHUC, em particular, e do SNS em geral são “um buraco negro” programado no universo desagregado dos hospitais. Por culpa dos profissionais? Não. Por vontade dos governantes.
O SNS, que já foi o produto mais perfeito da democracia portuguesa, está a caminho de se transformar numa recordação do passado. Saí das urgências sem zanga (quem luta não esmorece), mas com a secreta ruim-esperança de ter sido acompanhado, naquele ir-para-casa, por vários eleitores “do OE mais à esquerda de sempre”. Se a vida não nos ensinar, quem nos ensinará?

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