Opinião: “Lançar sementes ou recolher?”
Talvez o tempo seja de ensaiar outro modo de fazer e, sobretudo, de ser. Talvez seja tempo de ensaiar a escuta, a contemplação, o reconhecimento… Passei a vida a ouvir dizer que era preciso lançar sementes, fazer coisas, arriscar projetos, lançar ideias… sou fruto dessa ‘escola’ e tenho em mim essa ‘marca’. Julgo que é importante, lançar sementes, fazermo-nos ao caminho, construir projetos, semear palavras, sonhos e esperança.
Contudo, sinto que este dinamismo reclama outro tempo que não é prévio, mas contemporâneo. É preciso aprender a escutar, a conhecer o outro, caminhar ao seu lado, sentir o seu coração… saber dos seus sonhos.
O tempo de lançar sementes reclama a sabedoria de começar por identificar e recolher a semente já lançada – saber quem é o outro, o que vive, o que sente.
Recolher sementes é reconhecer o dom da vida, a bênção do outro. Recolher sementes é procurar colocar-se no lugar do outro, da sua dor, da sua angústia, das suas perguntas.
Mais do que atacar, dizer mal, impor o caminho… é tempo para se deixar tocar pelo esforço de tantos, pela entrega de muitos, para dedicação de homens e mulheres que não têm direito a primeiras páginas.
Num tempo onde as pessoas parecem viver sem transcendência, sem verdades, sem limites… onde tudo se resume a trabalho, (auto)imagem, diversão, bem-estar, convívio, viagens… onde cada um pertence a tantas ‘minorias’ e grupos… nada domina e somos muita coisa ao mesmo tempo.
Esta pluralidade de pertenças não só nos cansa como nos desfoca: há tensão para ‘organizar’ a agenda diária; há tensão para organizar as afetividades e as entregas; há tensão para dar sentido aos dias cheios de ‘intensidades’, vivências e emoções. O que resta de nós ao deitar? Tantas vezes a angústia de pensar que daqui a pouco surge um novo dia e a rotina volta, o ritmo não abranda, o trabalho acumula… as preocupações nem chegam a ‘descansar’.
Talvez seja tempo de ensaiar outro modo de viver. Talvez seja tempo de aprender a conjugar a vida com a ‘recolha das sementes já lançadas’, conjugar a vida com escuta, com silencio, com contemplação, com reconhecimento, com graça, com dom… com bênção. Talvez seja tempo de ensaiar outra Igreja (mais à imagem de Jesus Cristo e do Evangelho)..


