Opinião: “A revolução silenciosa do Papa”
A eleição do Cardeal Jorge Bergoglio para bispo de Roma, realizada pelo conclave reunido em Março de 2013, foi precedida por amplas discussões entre os cardeais eleitores. O caderno de encargos do papa a eleger era eminentemente prático, depois de dois pontificados (o de João Paulo II e o de Bento XVI) dominados por dois gigantes da filosofia e da teologia do século XX, mas com pouca apetência para as questões mais quotidianas, deixadas ao cuidado dos colaboradores mais próximos. A riqueza e profundidade destes pontificados foi assim por vezes ofuscada por casos de pura má gestão, devidos a uma cúria romana demasiado embrenhada nas questões e práticas italianas (nem sempre exemplares), bem como em modelos de gestão anacrónicos. O papa eleito recebeu uma última recomendação de um dos eleitores, o cardeal brasileiro Hummes: “Não te esqueças dos pobres”. Para que a memória não falhasse, escolheu o nome papal de Francisco, em homenagem ao santo de Assis que fundou a mais mendicante das ordens religiosas.
Francisco, como jesuíta obediente, tem dado especial atenção ao mandato que recebeu para a reforma do governo da Igreja. Passados nove anos, encontra-se em curso uma autêntica revolução, cuja natureza não é, contudo, de natureza doutrinal. A esse respeito, o papa tem afirmado de forma consistente e humilde a sua condição de filho da Igreja, procurando transmitir de forma fiel a mensagem de Cristo. O aspeto revolucionário consiste antes na forma de pensar as estruturas puramente mundanas e temporárias da organização interna da Igreja, não hesitando em sacrificar “tradições” que possam tolher a ação eclesial. No ano em curso, destacam-se três acontecimentos particularmente relevantes neste domínio. Por um lado, entrou em vigor uma profunda reestruturação do governo central da Igreja (a cúria romana), reorganizando os departamentos e eliminando a exigência de estes terem de ser liderados por clérigos (geralmente cardeais); passam a poder ser encabeçados por leigos, valorizando o papel das mulheres em lugares de decisão. Em segundo lugar, em Agosto próximo terá lugar a nomeação de novos cardeais: os cardeais são os principais colaboradores do Papa e têm como missão a sua eleição. Nas suas escolhas, o Papa tem-se destacado pela desconsideração por antigas tradições, particularmente europeias (e muito italianas), que consideram que certos cargos são “cardinalícios”. Pelo contrário, os novos cardeais têm sido recrutados com particular atenção a pessoas com experiência em órgãos colegiais nacionais ou internacionais (logo, reconhecidos pelos pares) e/ou aos responsáveis pelas comunidades mais periféricas ou discriminadas (entre os cardeais recém-nomeados conta-se, pela primeira vez, um indiano da “casta” dalit, marginalizada ao ponto de ser considerada “intocável”). Finalmente, encontra-se em curso a preparação de um importante órgão consultivo do Papa: o Sínodo dos Bispos surgiu em resultado do Concílio Vaticano II, tendo então sido reconhecida a vantagem e necessidade de manter em funcionamento uma forma de auscultação dos bispos de todo o mundo sobre as principais questões da Igreja. Para o sínodo que se realizará em 2023 e cuja preparação se iniciou em 2021, o Papa solicita que se pense e estenda a toda a Igreja o próprio processo da sinodalidade, alargando às bases a consulta sobre os processos de governo.
Embora as questões de saúde lhe tenham imposto recentemente a deslocação em cadeira de rodas (e alimentado as especulações sobre uma possível resignação), este papa octogenário prontamente terá comentado “para governar é preciso cabeça, não pernas”.


