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Opinião: “Macaquinhos de imitação”

20 de às 18h09
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Se visitar um jardim zoológico e atirar uma pedra a um macaco, abrigue-se bem porque é possível que ele lha devolva e o possa atingir. Está atitude não é surpreendente. Toda a gente sabe que os macacos se imitam entre si e também imitam os humanos, com quem eles acham parecenças. Eles são “macaquinhos de imitação”. E agora se lhe disser que os maiores macaquinhos de imitação são mesmo os humanos? Talvez não acredite, mas é verdade.
Desde o primeiro dia de vida, os recém-nascidos imitam os trejeitos da boca dos pais. Para além de satisfazerem as suas necessidades básicas, chorarem por elas e explorarem o ambiente, as crianças passam o seu tempo a imitar, assim encontrem um modelo disponível. É esta capacidade que lhes permite a sobrevivência e, simultaneamente, as torna humanas. Passado um mês, a criança está a representar, ou seja, a reproduzir um gesto que já imitou, mas na ausência do modelo e sobretudo quando a criança deseja a presença do modelo. Ou seja, quando uma coisa do mundo lhe falta, a criança representa-a com o seu corpo. O exemplo mais típico, é o dedo em vez do mamilo da mãe. É assim que ela inicia a sua linguagem, antes mesmo que possa falar. Mais tarde, transferirá os movimentos do seu corpo para a linguagem falada.
A aquisição da linguagem para comunicar e conhecer o mundo é ainda uma das questões mal entendidas pelas Neurociências. Se quisermos simplificar a questão, não há como rever os escritos de Jean Piaget, que estudou as brincadeiras dos seus próprios filhos. Para ele, a imitação completa-se com o jogo, que consiste no uso dos objectos do mundo. É nesta divertida dinâmica, entre imitação e jogo, que a linguagem, inicialmente não-verbal, se desenvolve de um modo flexível e vai adquirindo os seus significados. A criança brinca com os outros e com os objectos do mundo, mas também brinca com as representações que o seu próprio corpo produz, o que prenuncia o pensamento.
Ao longo da vida, o poder da imitação não desaparece. Imitamos os outros, imitamos o que vimos ou ouvimos, e imitamos o que lemos. Quando Goethe publicou o seu livro “A Paixão do Jovem Werther”, descrevendo um apaixonado que acaba por se suicidar, seguiu-se uma onda de suicídios por toda a Europa, conhecida como o “efeito Werther”. É por isso que a comunicação social evita divulgar os suicídios. Essa parece ser a única regra que limita os conselhos de redacção na divulgação de notícias nefastas. Mas ficam por aqui. Na sua ânsia de conquistar as audiências através do insólito e do apelo às emoções, não existem mais limites à divulgação das tragédias. O crime, a violência e, agora, a guerra e os tiroteios em massa, ocupam as primeiras páginas dos jornais mais popularuchos, enquanto o segundo ecrã das televisões repete obsediantemente as imagens mais trágicas enquanto os comentadores vão discorrendo.
Os resultados são visíveis. A violência real propaga-se, é reflectida pela comunicação social e volta a propagar-se. Os jornalistas, sem qualquer escrúpulo, alimentam este círculo. O perigoso conteúdo das mensagens contrasta com o ar inocente dos (ou das) jornalistas que o transmitem.

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