Opinião: Novo Ciclo Político (VII) – SNS: Liderar Mudança é possível!
Nos últimos anos, a nível da nossa administração pública, tive contato direto com vários altos dirigentes do sector da saúde.
Numa conversa com o presidente de um Conselho de Administração de um Instituto Público, a propósito da necessidade de esse órgão ter finalmente uma nova lei orgânica que o dotasse de quadro de pessoal dirigente, mais autonomia responsável, reforçar as estruturas de apoio técnico especializadas e um orçamento real, dizia-me ele, contrariado, que não precisava de nada disso!
A resposta era absurda. Com lideranças assim, sem visão, com organismos centrais e regionais pouco interessados e com certas elites que manobram para manter tudo na mesma, alimentando o modelo hierárquico e burocrático, só por milagre haveriam de se resolver os gravíssimos problemas de liderança que temos no SNS.
Este episódio caricato mostra bem a cultura de amadorismo e de resignação ao abandono que tem marcado a seleção de muitos dirigentes da nossa administração em saúde (SNS) e ajuda a explicar a situação atual.
As críticas apontadas ao modelo de seleção de dirigentes para a Administração Pública seguido pela Comissão de Recrutamento e Seleção para a Administração Pública (CReSAP) são muitas e chegam de várias frentes. O atual Governo reconheceu já a necessidade de alterações ao estatuto dos dirigentes.
O próprio primeiro-ministro, António Costa, reconheceu recentemente que além de mais meios para o SNS são também necessárias melhor organização, coordenação, gestão e mais autonomia e maiores incentivos para a motivação dos profissionais.
Urge acabar com a utilização recorrente da colocação de dirigentes em regime de substituição que se eternizam, acabar com a seleção individual para órgãos colegiais, introduzindo a seleção de uma equipa e impossibilitar a renovação de mandatos de cinco anos sem qualquer avaliação pública.
Perdeu-se o sentido de missão pública que ainda teria força para atrair os mais diferenciados.
O grande desafio é voltar a credibilizar o sistema público, prestigiando as instituições, a política e o serviço público como serviço à comunidade.
É consensual que para tornar o SNS mais atrativo, é preciso dar atenção a fatores como os salários ou a perspetiva de progressão nas várias carreiras.
O novo Estatuto do SNS e a criação da futura Direção Executiva abre a possibilidade de se iniciar um novo ciclo de liderança capaz de alimentar a gestão da mudança centrado na estratégia. Deve definir como prioritário um plano de desenvolvimento de competências de liderança de dirigentes aos diferentes níveis (executivos, direções clínicas e diretores de serviços) dos Hospitais e Centros de Saúde.
A nova Direção Executiva deverá privilegiar uma estratégia transparente de trabalho em rede, incentivando as unidades de saúde a adotar e a induzir boas práticas na gestão, apostando na coordenação inteligente e operacional que fomente a transparência na tomada de decisão e prestação de contas.
Uma liderança empenhada, responsável, atenta, capaz de ouvir, de formar, de acompanhar e que incentive desenvolvimento dos seus trabalhadores. Para isso, terá de ter autonomia para revisitar o recrutamento (concursos), o desenvolvimento profissional e avaliação de desempenho (carreiras) e a remuneração com um sistema misto que discrimine positivamente, privilegiando a dedicação exclusiva e clarifique o regime de tempo parcial.
“Não basta apenas colocar mais meios. Precisamos de melhor organização, melhor gestão e de condições para motivar mais os profissionais do SNS”, afirmou António Costa. Assim seja!


