Opinião: Funerais Ganeses
2022 está a ser um ano problemático para a maioria dos países. No caso do Gana, problemático é um adjetivo demasiado brando para classificar estes últimos sete meses. Finanças públicas em mau estado, aumento galopante da inflação, pedido de ajuda externa ao FMI e agora só faltava mesmo um surto do vírus Marburg que, pelos vistos, é primo do famoso Ébola.
Dois casos mortais já foram confirmados e, muito provavelmente, outros se seguirão. Preveem-se, infelizmente, a realização de vários funerais nas próximas semanas.
Os funerais são os eventos sociais mais importantes na sociedade Ganesa. Familiares, amigos e conhecidos, todos acorrem às cerimónias fúnebres. Para se encontrar uma agenda comum, de forma a que todos possam participar, os cadáveres chegam a ficar 4 a 6 meses nas morgues dos hospitais, criando um problema enorme às suas administrações. É normal receber a notícia de que alguém morreu e, passado 6 meses, quando já nos esquecemos do infeliz evento, confrontamo-nos com um convite para o funeral dessa mesma pessoa. Durante esse período, as famílias mais humildes tentam recolher donativos para que se possa realizar a cerimónia, pois não fica barato organizá-la. As famílias mais abastadas têm capacidade financeira para organizar funerais que, provavelmente, têm apoio de profissionais na produção de eventos. Há uma espécie de brochura entregue à chegada da cerimónia onde se fica a saber tudo sobre o falecido. Fotografias do próprio, quem são os seus familiares, eventos especiais na vida, tudo com uma elevada qualidade que é difícil, por exemplo, encontrar o equivalente em brochuras comerciais de empresas ganesas.
Durante a pandemia a cultura dos funerais no Gana ficou famosa após um “meme” de um grupo de Ganeses a dançar enquanto carregavam um caixão se ter tornado viral. O mundo também ficou a conhecer a originalidade na produção de caixões. Há modelos de caixões com a forma de garrafa de coca-cola, naves espaciais, garrafas de cerveja, etc. É só pedir o que se pretende e o carpinteiro executa.
Julgo que, de uma forma geral, nos funerais ganeses a cultura da tribo Ga prevalece. Para este povo a morte não significa propriamente um fim, eles acreditam que a vida continua no “outro mundo” da mesma forma que aconteceu na Terra. Os seus antepassados também são considerados muito mais poderosos que os vivos e capazes de influenciar seus parentes que ainda estão vivos. As famílias dos defuntos unem-se e gastam o máximo possível para assegurar que os seus entes queridos tenham a melhor partida possível, para que, já no “outro mundo”, sejam solidários com os que permanecem vivos.


