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Opinião: A consciência

12 de às 11h54
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Todos falam de consciência, todos sabemos que a temos, mas ninguém sabe dizer o que ela é. Os antigos nem conheciam o termo. Falavam antes da alma (ou termos equivalentes e igualmente vagos, como mente e psique), uma espécie de nuvem que pairava sobre a nossa cabeça e era independente do corpo, ou alguma coisa etérea que se alojava, escondida, nalguma parte do corpo ou do cérebro. Para Descartes, seria mesmo no centro do cérebro, na glândula pineal. Só em 1691, o filósofo inglês John Locke popularizou o termo consciência que, etimologicamente significava ciência acompanhada de outra ciência. Consciência é sempre um saber (ciência) acompanhada de outro saber (outra ciência). Consciência também é saber que se tem consciência.
Os neurocientistas contemporâneos perseguem a definição de consciência. Mas situam-na entre dois polos extremos. Para uns, como Daniel Dennet, a consciência nem sequer existe: seria apenas um epifenómeno, algo acessório á nossa actividade cerebral. No polo extremo encontra-se Penfield, acreditando que a mente se encontra nos túbulos neurais. Mas esta não é senão uma maneira de encontrar um novo esconderijo para tão etéreo ser, do mesmo modo que Descartes pensava que a pineal era o esconderijo da alma.
Uma observação mais apurada revela que a consciência é sempre individual, tal como a alma o era, ao contrário do espírito que tinha uma abrangência colectiva. Então, a consciência é sempre a consciência de si, e relaciona-se com a identidade, coisa que não terá escapado a Locke. Por outras palavras, é o sentido da mesmeidade: eu sou o mesmo que era dantes, apesar de o meu corpo mudar, desde a infância à velhice, e de todos os seus átomos, moléculas, células e tecidos constituintes se substituirem permanentemente. Para além das implicações jurídicas – substanciadas pelo aparentado conceito de pessoa – esta ideia tem permanecido em todos os estudiosos do tema. E ainda bem que permaneceu. Hoje, os neurocientistas conhecem as estruturas cerebrais que se activam quando estamos a lidar com os problemas da consciência e identidade: quando pensamos no nosso passado, quando imaginamos o nosso futuro, tomamos decisões morais ou tentamos compreender os outros. São as zonas médias dos hemisférios cerebrais, de grande dimensão nos humanos, sobretudo à frente e atrás da ponte (o corpo caloso) que liga as duas metades do cérebro. Existe porém muito para descobrir. Os chamados estados alterados de consciência, com a ajuda de drogas, manipulações hipnóticas ou recurso a sonhos lúcidos, a pesquisa do inconsciente e da sua primazia no comportamento, estão agora sob foco. Um aspecto decisivo, posto em relevo após a separação cirúrgica das duas metades do cérebro (cingulectomia) para tratar a epilepsia resistente, tem a ver com o funcionamento complementar dos hemisférios cerebrais: um deles, em geral o direito, mais intuitivo e emocional, o outro, em geral o esquerdo, mais racional e lógico. Todo este estudo ainda está no início. Muita coisa se pode explicar já, mas a consciência, que parece evidente a toda a gente, aparece como o último limite do conhecimento. Entretanto, torna-se cada vez mais difícil lidar com o problema da identidade.

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