Opinião: O diabo foge da Cruz
Quando o Papa Francisco estabeleceu em 2019 a necessidade de todas as dioceses do mundo criarem canais próprios para a comunicação de atos de abusos sexuais de menores por membros do clero, através de comissões diocesanas estabelecidas para o efeito, logo houve bispos que entenderam vocalizar a sua discordância. Em Portugal, ficaram tristemente conhecidos os comentários na TSF do bispo do Porto, D. Manuel Linda: «Ninguém cria, por exemplo, uma comissão para estudar os efeitos do impacto de um meteorito na cidade do Porto. É possível que caia aqui um meteorito? É. Justifica-se uma comissão dessas? Porventura, não.»
Entretanto caem pesada, pesadamente os meteoritos sobre a Igreja Portuguesa que, naturalmente, não conhece qualquer imunidade relativamente a estes crimes abjetos. Portugal não está também imune à praga de comportamentos irresponsáveis de tantos líderes eclesiásticos neste assunto da maior gravidade e que, felizmente, é alvo da maior atenção e sensibilidade social, dentro e fora da Igreja. O mesmo bispo recentemente fazia declarações completamente inaceitáveis e erradas à CNN Portugal: «ainda hoje, oficialmente, o crime de abuso não é um crime público. Portanto, não há obrigatoriedade de denúncia.»
A respeito do comportamento de tantos responsáveis, ocorre um episódio relatado por Mateus no seu Evangelho. Anunciando Cristo aos apóstolos a sua morte na Cruz, rapidamente o próprio Pedro se apressa a «repreendê-Lo severamente», obtendo de Jesus uma resposta invulgarmente violenta: «Vai-te para trás de mim, Satanás! És para mim motivo de escândalo, porque não tens em mente as coisas de Deus, mas as dos homens». Tal como os apóstolos, também tantos dos seus sucessores prefeririam evitar estar junto da Cruz, com as vítimas, antes frequentando os ambientes confortáveis dos paços de Anás e de Caifás.
Este síndroma satânico da avestruz afetou pessoas da maior responsabilidade: o próprio Papa Francisco, em determinado momento, recusava as acusações de encobrimento de abusos sexuais de menores feitas a um prelado chileno, minimizando-as publicamente: «No dia em que me trouxerem provas falarei. Não há uma única prova, trata-se de calúnias.» Foi preciso, nessa ocasião, que o valente e leal franciscano que o próprio Francisco nomeou como responsável pela política vaticana de proteção de menores, cardeal Seán O’Malley, desse um público e duríssimo raspanete ao Papa: «É perfeitamente compreensível que as palavras do Papa Francisco […] tenham sido fonte da maior dor para as vítimas de abusos sexuais por clérigos ou por qualquer outro agente. Palavras que contêm a mensagem “se não podes provar as tuas acusações então não acreditaremos em ti” abandonam aqueles que sofreram condenáveis e criminosas violações da sua dignidade humana e relegam os sobreviventes ao exílio do descrédito.»
Honra seja feita ao Papa, não só aceitou humildemente a justa reprimenda deste colaborador, como ordenou uma investigação profunda que culminou num histórico pedido de demissão em bloco dos bispos chilenos. Francisco, seguindo de perto as pisadas de Bento XVI, tem criado e aprofundado mecanismos de sensibilização, prevenção e, sobretudo, responsabilização quer de criminosos, quer daqueles que pela ocultação se tornam cúmplices. Tal como para os apóstolos, há esperança para os seus sucessores, assim que também eles percebam que a salvação e a glória se encontram junto à Cruz, com as vítimas.


