Opinião: Loucos são os outros
Andamos todos a brincar com a saúde mental. Se é difícil assumir individualmente é muito conveniente coletivamente varrer para debaixo do tapete. É um facto, desde logo as autoridades públicas a quem raramente se ouve uma palavra para fazer face um drama que a pandemia veio agravar, mas igualmente pôr a nu.
Esta semana – confesso a minha quota-parte de ignorância e por isso decidi escrever sobre o tema – numa formação a que assisti, dei-me conta que as doenças mentais são mais comuns que o cancro, a diabetes ou as doenças cardíacas. Fiquei impressionado: 1 em cada 5 pessoas experimenta um qualquer episódio de saúde mental e tem mesmo pensamentos suicidas. 1 em cada 25 verá a respetiva vida profissional ou pessoal profundamente afetada por esse episódio.
Fui indagar e, nos últimos anos, o papel de muitos artistas e atletas tem sido absolutamente relevante para combater o estigma, tornando públicas as respetivas depressões, crises de ansiedade ou desordens bipolares. Os exemplos de Adele, Alanis Morissette, Billie Eilish e o muito discutido caso da ginasta americana Simone Biles quebraram barreiras, colocando na praça publica a saúde mental.
Aprendi também que cada um de nós tem um papel importante na identificação de casos e, sobretudo, no apoio ao outro. Em regra, desvalorizamos muitos dos sinais evidentes de letargia, isolamento, ansiedade, irritabilidade e conflitualidade, tentando encontrar sempre razões contextuais, quando o “buraco é mais abaixo!”. Acresce, que quem se encontra doente raramente o reconhece, procrastinando e evitando o óbvio e os outros; e estes reagem de forma desadequada: julgando, culpando com veemência ou simplesmente desvalorizando.
Dei comigo a pensar que os números confirmam existir no meu círculo próximo quem precise de ajuda. E, mais ainda, a refletir se em determinados momentos não terei eu precisado. Este exercício individual parece-me ser o ponto de partida para enfrentar um drama que é de todos e, sendo socialmente relevante, deveria ter nas autoridades públicas os primeiros agentes de intervenção. Tanto mais que o contexto de pandemia seguido de guerra, crise energética e recessão económica, em tão curto espaço de tempo, servirá para agravar ainda mais os números que já eram assustadores.


