Geralopiniao

Opinião – Dar um tempo

25 de às 13h17
1 comentário(s)

Era de madrugada. A noite havia ficado entupida no leito do quarto, sem vontade de sumir. Contou as paredes, e nelas as sombras. Contou o barulho dos carros pisando a tampa metálica na estrada. O tempo horizontal custa a passar. O relógio marca devagaradamente o seu silêncio. Não se atrapalha, não prescinde de si mesmo nem de cada parte sua. Não apressa os ponteiros. Quando o tempo bate certo no espaço errado, algo em nós desacontece.
O que está a ocorrer para que as pessoas tenham cada vez mais dificuldade em separar o dia da noite, modificando, como diz a cronobiologia, os seus ritmos biológicos? Evoluímos com o claro e o escuro, o momento de dormir e o momento de estar acordado. Mas hoje, com todas as invenções e possibilidades, aprisionamo-nos no tempo. O dia e a noite são iguais. Para podermos descansar, passámos a comprar o sono na farmácia, pois o sono também vem em caixas.
O tempo está a modificar-se. Ele passa constante, mas os nossos olhos, em vertigem, procuram ocultá-lo. A sociedade de consumo persuade-nos caprichosamente com os seus convencimentos de que precisamos de gastar, adquirir, comprar: o novo telemóvel, o creme para as rugas que esconde o tempo que vivemos. Não haveria mal nisso, se não fosse o facto de nos termos enfiado num gueto virtual onde a vida passa irrepetivelmente por nós.
Que tipo de solidão é esta? Estamos com os nossos telefones, interagindo num mundo compartilhado no ecrã, aderindo a um tempo e a um espaço globais, mas efetivamente separados uns dos outros. Tão juntos e tão sozinhos. E nunca foi tão comum dizer: “não tenho tempo”.
A ideia de que não temos tempo radica na conceção do tempo produtivo, que tem um caráter capitalista. Quando trabalhamos a troco de um salário, vendemos o nosso tempo. Sabemos que assim é, mas não questionamos o modelo, porque ele “normalizou-se” e é difícil sobrevivermos de outra forma. O tempo da sociedade não está feito para pensar, mas para esta criar coisas concretas, para ser produtiva no sentido económico.
O tempo que passamos fora do tempo produtivo, o “tempo livre”, é o tempo que as pessoas passam fora do seu trabalho e possam empreender familiarmente na reprodução da própria classe, tendo filhos, para que estes um dia sejam trabalhadores e ajudem a estrutura de pensões a pagar a sociedade dita improdutiva. É assim que pensam os sistemas políticos.
Nesta ótica, se o mundo chegou aos oito mil milhões de habitantes, e se a Europa está em declínio demográfico, significa que a Ásia, que tem o maior sistema económico do planeta, deveria estar a reproduzir-se para manter o capitalismo no seu vigor florescente. Se observarmos, está mesmo. A Europa tem 7% da população mundial face aos 55% da Ásia – mais de metade das pessoas do mundo vivem onde existem as mais altas taxas de produção.
Por outro lado, de que forma temos usado o nosso tempo livre? Na maior parte das vezes… a produzir. Por exemplo, quando colocamos algo no FB, no Instagram, no Youtube ou no Twitter, não ganhamos nada com isso. Estamos a dar de graça conteúdo que enriquece a marca e os seus donos. E esta é uma nova variante do capitalismo: cedemos livre e gratuitamente tempo e conteúdo para enriquecer os donos destas empresas, em troca de uma existência virtual.
Ainda que o nosso tempo se tenha convertido numa conta-poupança em débito constante, precisamos mesmo de dar um tempo…

Autoria de:

1 Comentário

  1. Chavascal da AI diz:

    Quando coloca alguma coisa no Facebook, no Instagram, no Youtube ou no Twitter, ou noutro sítio qualquer, as empresas e seus algoritmos de AI ganham dados. Dados seus. E dados esses, que hoje, equivalem a muito, muito dinheiro. Valem muito, os dados de todos. Não confundir dados com informação, pois dados só constituem informação quando interpretados por qualquer suporte, seja humano ou não. Os seus dados enriquecem a marca e os seus donos. É apenas mais uma expressão do que é um bom negócio. E até há humanos que colocam lá as fotos da família toda, desde que nascem até que morrem. Os algoritmos de AI agradecem. Aprendem muito com isso. Os humanos, esses, estão à espera do retorno egóico, e talvez também de algum retorno para os seus. Quem sabe ficarem famosos e também ricos com o número de visitantes do seu perfil virtual. Isso traz saliência virtual e também dinheiro Esta é uma nova variante de negócio: cedemos livre e gratuitamente tempo e dados próprios e dos nossos. A existência virtual dá muito frissom aos humanos.

Deixe o seu Comentário

O seu email não vai ser publicado. Os requisitos obrigatórios estão identificados com (*).


Geral

opiniao