Opinião: A utilidade da percepção
Habituámo-nos a pensar que percebemos o mundo com os olhos e os ouvidos, embora cada um o perceba de um modo diferente. Esquecemos porém que não perceberíamos nada se não fossem os nossos movimentos. Na verdade, poderíamos usar uns óculos prismáticos que invertem o mundo: o que está em cima aparece em baixo, o que está em baixo aparece em cima. Esses óculos foram usados experimentalmente a partir de 1938 e, passadas algumas horas a dias, os sujeitos que os usavam permanentemente corrigiram a sua percepção e voltaram a ver o mundo de pé. Talvez não o fizessem se permanecessem parados. Mas a tentativa de agarrar e manipular um objecto, ou simplesmente de se deslocarem, corrigia a percepção errada. O mesmo faz um cego com a sua bengala. Conclusão: o que mais nos transmite a percepção do mundo, é a nossa capacidade loco-motora; os outros órgãos dos sentidos são meros auxiliares.
Todos sabemos que o mar é azul porque estamos de acordo com essa palavra para designar um certo intervalo de comprimento das ondas luminosas. Mas ninguém sabe se o azul que eu vejo é o mesmo que o outro vê. O importante é que distingamos os brilhos e as cores para que não mergulhemos numa estrada de macadame, pensando que se trata de uma piscina. Mas sim: podemos rever essas imagens e sensações enquanto sonhamos, recordamos ou imaginamos, embora neste caso estejamos num mundo diferente daquele que está na nossa cabeça. Ou seja: o mundo que nós vivemos não é o que existe realmente, mas aquele que nos aparece e que aprendemos a perceber de acordo com a sua utilidade. Mas tudo pode mudar de um momento para o outro. Muda, certamente, durante os sonhos ou com o consumo de drogas alucinogénicas. As imagens aparecem então sem qualquer utilidade para o nosso comportamento, pois algo se desligou no cérebro e o aparelho motor deixou de funcionar.
O que é então o mundo, o que é o universo, o que somos nós? Algo de maravilhoso quando nos dedicamos à contemplação. Pelo raciocínio científico, podemos também dizer que se trata sempre de conjuntos de partículas atómicas ou sub-atómicas que se influenciam mutuamente e através dessa influência se vão organizando em moléculas, células, órgãos, organismos, comunidades, ecossistemas. Para sermos mais genéricos, sabemos que, enquanto a maior parte das partículas se torna caótica (o que dá pelo nome de “entropia”), um número cada vez maior se organiza e dá origem a seres idênticos (o que dá pelo nome de “neguentropia”) até chegar àquele que agora contempla, conhece e pensa que percebe o universo, o mundo, os outros seres vivos e a si próprio.
Mas os humanos continuam a ver o mundo enquanto se movem, e daí retiram a percepção do que se lhes torna útil. E o que se lhes torna útil, nem sempre é o que necessitam para o seu dia a dia, mas o que podem guardar para si, com a ilusão de que algum dia poderão precisar. A ganância nasceu assim. É a ganância que agora governa as nossas percepções do mundo e dos seres vivos que nele habitam. Mas não é seguro que eles sobrevivam à ganância generalizada.


