Opinião – Recordações da infância
Aí está a época festiva que dá férias aos estudantes e traz consigo, para os mais novos, o prazer das luzes e dos lindos pacotes com uma surpresa que o velhote das barbas lhes traz no seu trenó último modelo. Ali, mais adiante, muitas outras crianças no mundo ficam à porta da felicidade e correm a apanhar as migalhas que vão caindo da mesa dos ricos, dos que podem gozar o momento de fruição consumista.
É uma época em que recordo sempre a minha infância, numa casa em que o Natal não era particularmente celebrado, mas que me permitia passar as manhãs a ouvir na rádio as músicas do meu tempo. Não, não havia televisão nessa altura e só as vozes das e dos locutores chegavam até mim naquela casa da Póvoa de Varzim.
No dia 24 de dezembro tudo era frugal e com peso, conta e medida. Havia o presépio feito pela minha Mãe, mas era tão pequeno como a família (eramos cinco).
Antes da refeição, a minha avó puxava de uma oração que a minha mãe acompanhava e que o pai Arlindo e o avô Artur respeitavam sem se intrometerem no momento. Ao jantar havia o indispensável bacalhau cozido com batatas, peixe escolhido do melhor que havia no armazém de mercearia da família, e que o meu avô fazia questão de ser ele mesmo a selecionar, e um queijo flamengo que fazia a minha delícia. Depois, lá estava o bolo-rei, umas saborosas rabanadas, um leite-creme para quem o apreciasse e pouco mais. Os adultos bebiam uma taça de champanhe e tomavam um delicioso café, cujo aroma consolava, também escolhidos pelo avô Artur que nessa noite não deixava o seu crédito por mãos alheias. O café era feito numa máquina manual que os meus avós do Funchal tinham oferecido e que ainda conservo religiosamente, embora não saiba trabalhar com ela.
Mais tarde, lá pela meia-noite, chegava o menino a que chamaram Jesus (que o Pai Natal ainda não tinha renas e só anos depois começou a aparecer nas casas dos meninos que se tinham portado bem e tinham estudado o mais que podiam).
E as prendas entusiasmavam qualquer criança: peúgas e cuecas eram prenda obrigatória. Depois, com um bocado de sorte lá víamos um embrulho todo bonito, com laçarotes a condizer, que podia trazer um pijama ou um pulôver. Ainda me lembro que num desses dias festivos me saiu um sobretudo todo apinocado, que já levei para a rua no dia seguinte. Ah! Num qualquer ano da década de quarenta ou inícios da de cinquenta recebi um carro de bombeiros com o qual me fartei de imitar as sirenes que, mesmo de verdade, eu ouvia de minha casa, sempre que havia fogo. Foi a época em que pensei que uma boa profissão para mim era a de soldado da paz, coisa que o tempo não concretizou.
25 de dezembro era um pouco o rescaldo da festa da véspera, mas altura para se comer um lindo frango alourado, feito em forno de lenha (então o forno havia de ser de quê naquela altura!), as guloseimas que sobraram da véspera também vinham para a mesa, a que se acrescentava um pudim e uma salada de frutas, feita pela minha mãe, voltando o café, para aquecer as vidas. O espumante que sobrara era misturado com vinho branco de qualidade, o que me levava a invejar quem a esta bebida tinha acesso. Esclareço que a nostalgia desta mistura de vinho mais espumante é tanta, que ainda hoje a faço muitas vezes…
Pelo meio disto tudo a mãe e a avó iam à missa e eu tinha de as acompanhar, enquanto o meu pai e o meu avô dispensavam o ritual.
Depois, a 26, tudo voltava ao normal. Ouvia rádio, brincava à tarde no jardim fronteiro à minha casa, trocava acaloradas conversas com os outros meninos sobre o que o menino Jesus tinha trazido para cada um, jogava à estrancela ou à carica e fugia à polícia com a bola debaixo do braço.
Nos primeiros dias de janeiro voltava a vestir a bata verde e regressava à escola, onde a Dona Cremilde queria saber como tinha sido o nosso Natal e se tínhamos ficado contentes com as prendinhas do menino Jesus. Devo confessar que quando soube que não era o referido infante a trazer as prendas fiquei triste como a noite. Tinha sido enganado.
Bom período de festas para os que fazem e leem este jornal.
PS – Eduardo Marçal Grilo lançou recentemente a obra “Salazar e a Educação no Estado Novo”. Leitura interessante (nem sempre estou de cordo com o autor) que não deixa esquecer o que foi a evolução da educação em Portugal nos últimos cem anos. Aconselho.


