Opinião: O poder da humildade
O episódio dos Reis Magos encontra-se entre aqueles a que o Cristianismo sempre concedeu maior destaque, ao ponto de nas tradições cristãs orientais lhe ser atribuída ainda maior importância do que ao próprio Natal. Vários aspetos fundamentais contribuem para isso, mas talvez um dos principais seja o facto de aqui se revelar a humildade (e o sentido de humor) d’Aquele a quem os cristãos reconhecem como Criador do Universo, nascido num estábulo, mas desde logo atraindo a Si, sem distinção, pessoas de todas as nações. Naturalmente, todos aqueles em posição de poder preferiram sempre acentuar o caráter real dos visitantes do menino, bem como a sumptuosidade das suas ofertas. Ao longo dos séculos, os teóricos do poder temporal da Igreja foram sublinhando que o menino era o “Rei dos Reis”, mas como sabemos essa é uma armadilha em que o próprio Cristo não caiu, antes acabando por perecer às mãos do poder, político e religioso. A Igreja demorou um pouco mais a libertar-se dessas amarras e ainda hoje há quem tenha dificuldade em entender que S. Paulo VI tenha definido como providencial a perda dos Estados Papais e do poder temporal da Igreja. No entanto, foi essa perda que permitiu que o papado chegasse ao século XXI como o mais forte e influente de todos os “soft powers”. Estaline perguntava sarcasticamente pelo paradeiro das legiões do papa; S. João Paulo II, sem disparar um único tiro, desempenhou um papel determinante na queda do muro de Berlim.


