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Opinião: O menino que gritava “vem lobo!”

03 de às 11h16
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Gostava de começar esta crónica lembrando uma historieta infantil que muitos contámos aos filhos: a do menino que, no monte, pastoreava um rebanho e que, um dia, resolveu animar o seu dia desatando a gritar aos quatro ventos que andava lobo a atacar as ovelhas! Os gritos chegaram à aldeia e logo se mobilizou um grupo de gente para ir em socorro. Correram encosta acima mas, ao chegarem, foram recebidos com gargalhadas pelo brincalhão que confessou que não havia lobo nenhum e que apenas lhes tinha pregado uma partida… Pode imaginar-se a ira dos aldeões! O miúdo, no entanto, não se deixou impressionar e, uns tempos depois, repetiu a brincadeira, desatando outra vez a berrar que havia lobo a matar as ovelhas. Desta vez, alguns terão desconfiado de nova partida mas, à cautela, lá seguiu nova comitiva, recebida, outra vez, pelas gargalhadas do mariola…à segunda vez, esperou-se que o catraio tivesse finalmente aprendido a lição. Pelos vistos, não… Uns dias depois, voltaram a chegar à aldeia gritos de socorro vindos dos montes. Claro que, desta vez, já ninguém ligou nenhuma porque só podia ser brincadeira. O problema é que, à terceira, não era brincadeira! E, assim, lá acabou o lobo por dizimar as ovelhas e há quem diga que até o menino.
Vem esta historieta a propósito do número de vezes que temos ouvido o Senhor Presidente da República falar, nos últimos tempos: o Presidente ora aparece a dar palpites sobre futebol, ora a cumprimentar velhinhas na rua, ora a dar recados a ministros, ora a discorrer em areópagos internacionais … O frenesim de intervenção e comentário do Presidente alastra a todos os assuntos que a espuma dos dias lhe traz, mesmo os que talvez não devessem merecer o relevo da atenção presidencial. Com isto, é verdade que se percebe que temos um Presidente atento, culto, informado e dedicado mas há um efeito colateral de andar sempre na berlinda tanto em assuntos relevantes como irrelevantes: é que da vez seguinte que o Presidente fala, por estarmos anestesiados com a catadupa de comentários que lhe ouvimos antes, somos tentados a prestar menos atenção. Ora, se o comentário que já não escutarmos for sobre a tática da Seleção de futebol contra a Suíça, nem se perde nada … O problema é que, no meio das muitas declarações sobre temas pouco pertinentes, o Presidente elege, de vez em quando, assuntos muito importantes e faz afirmações muito significativas, às quais devíamos prestar atenção. É o caso da sua Mensagem de Ano Novo!
Nela, o Presidente afirma: “está ao nosso alcance tirarmos proveito de uma vantagem comparativa – que é muito rara na Europa e no mundo democrático – e que se chama estabilidade política, ademais com um Governo de um só partido com maioria absoluta, mas, por isso mesmo, com responsabilidade absoluta. Estabilidade que só ele – ele Governo – e a sua maioria podem enfraquecer ou esvaziar, ou por erros de orgânica, ou por descoordenação, ou por fragmentação interna, ou por inação, ou por falta de transparência, ou por descolagem da realidade.”
Comentário certeiro, relevante e premonitório, Senhor Presidente! Saibamos todos, oposição e Governo, continuar a escutar o que de importante o Presidente tem a dizer…
Depois de, na semana de Natal, ter havido trabalho parlamentar suplementar, com a conclusão de vários processos legislativos que tinham de estar prontos até final de 2022, a semana entre o Natal e o Ano Novo não teve reuniões de Comissões nem do Plenário. Estava a ser uma semana calma até as trapalhadas na TAP terem feito cair o Ministro Pedro Nuno Santos. A semana que está a começar promete trabalho parlamentar e político extraordinário e intenso.

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