Opinião: Ahmed, um professor de Matemática Líbano – 2014
Conheci Ahmed quando andava a fotografar o “corniche” de Beirute, a zona da praia dos menos abastados, muito longe do luxo e do glamour que esta cidade ainda sabe ostentar, apesar da grave crise económica e dos vários reveses com que a História já a rasteirou, tentando continuar a fazer jus à sua designação de “Paris do Oriente”.
Como era o único estrangeiro que por ali deambulava numa zona que era normalmente para usufruto dos locais da classe média, em vez de estar numa das muitas opulentas esplanadas que fariam as delícias de alguns aficionados das selfies para consumo de um naipe bem alargado de redes sociais, este homem perguntou-me de onde vinha e o que me levava a visitar aquele espaço tão fora dos roteiros turísticos. Depois do espanto inicial, demos origem a uma agradável conversa que foi direcionada para a Política e a Religião, dois poderes que por aqui andam de mãos excessivamente dadas, sofrendo o povo com todo este sectarismo tão enraizado na sociedade que fora já em boa parte responsável pela guerra civil que dilacerou este estado entre 1975 e 1990. E há feridas que custam a cicatrizar.
Estava a findar o mês de Julho de 2014 e encontrava-me em fase de descoberta deste país e do seu povo, sedento de histórias e de novos pontos de vista que viessem de quem aqui mora. Ahmed passeava o seu pastor alemão ao fim de tarde, exibindo o seu animal de estimação com o orgulho de quem mostra um filho de tenra idade que já consegue dar os primeiros passos sozinho. Tinha ido banhar-se perto dali às margens do mediterrâneo, a julgar pela roupa encharcada que os agora ténues raios de sol já não conseguiam tão eficazmente secar. A sua fé não lhe permite andar de tronco nu nas águas, e muito menos de calções curtos.
Sendo muçulmano pertencente ao ramo xiita, não escondia o medo que tinha de uma invasão do Estado Islâmico no seu país, sabendo o que lhe ia acontecer se tal hecatombe se consumasse. “Olha aqui esta tatuagem no meu braço, o símbolo de Ali! Eles veem logo que eu sou xiita e degolam-me também, como fizeram a muitos outros! Mas morro pela minha fé, não tenho medo”, desabafou comigo. Por essa altura esse grupo terrorista tinha conquistado parte substancial do Iraque e da Síria, e encontrava-se na fronteira do seu país, tendo-o invadido na cidade de Arsal na semana seguinte.
Este libanês era professor de Matemática, o que animou ainda mais a conversa por ser meu colega de profissão. No resto do mundo, os problemas e as reivindicações desta profissão são notoriamente transversais, dada a sua revolta pelos maus salários, desvalorização a que o Ensino também aí é votado, que depois se desmultiplica num conjunto de políticas que o fazem temer pela formação das gerações vindouras. Enquanto falávamos, o seu cão olhava atentamente para mim, sem destroçar a sua postura de guardião do seu amo.
Quando nos despedimos, a sua roupa já deveria estar bem mais enxuta, a julgar pelo tempo que ali estivemos petrificados nos dois dedos de conversa ao pôr-do-sol. Não fiquei com o contacto dele. Nunca mais o vi. Provavelmente, nunca mais o verei, mas penso nele no rescaldo desta tragédia. Terá Ahmed sido vítima do supremo infortúnio de ter estado no sítio errado à hora errada? Terá ficado também ele desalojado? Estará bem? Cada ponto de interrogação resvala para um outro e multiplica a compaixão por este povo que tanto me tocou no coração pela sua simplicidade e hospitalidade, mesmo afogado nas crises que há mais de meio século os flagelam com maior intensidade.


