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Opinião: “Elogio do silêncio”

28 de às 12h20
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Somos entes falantes. Falamos até que a voz nos doa, e para além da dor na voz. Falamos a propósito de tudo e de nada. Falamos por falar. Falamos para que alguém nos ouça. Falamos para escutar o eco da nossa própria voz. Falamos demais. Falamos quando devemos calar. E calamos quando devemos falar.

Tagarelamos. Elevamos a voz. Levantamos o tom. Cochichamos. Sussurramos. Berramos. Gritamos. Deixamos cair palavras como facas. Usamos a alusão como veneno. Difamamos. Caluniamos. Cortamos o pio. Não nos calamos.
Matamos o nosso breve tempo com mesas redondas, com debates, com conferências, com colóquios. Buscamos a voz do dono. O canto das sereias. A canção do bandido.

Atiramos palavras como agrestes pedras. Palavras que firam. Que julguem. Que condenem. Palavras que são penas capitais.
O discurso incendeia paixões, anuncia terrores, enuncia devastações. A retórica é a arte do vazio. Aos animais e às plantas, felizmente, não foi dado o duvidoso dom da fala.

No lugar da fala, coloquemos olhos comunicantes, rostos comunicantes, mãos comunicantes.
Pois o mundo, nota Vasco Graça Moura, não aguenta a narração de mais nada.

A voz humana pode ser letal. Quando não declina em canção. Quando não decai em lamento de amor ou em canção de embalar.
Apenas como canção a fala se aproxima do silêncio. Onde a prédica e o sermão ateiam os fogos das inquisições, os cantos monásticos são como água que corre, rumor de uma existência que levemente passa.

É em silêncio que damos grandes passeios aos domingos. É em silêncio que buscamos o calor das mãos que se entrelaçam, o fogo dos olhares que se cruzam, a inquietação dos corpos que se tocam.

É no silêncio que encontramos o brando respirar da terra. O suave rumor do tempo.
E o imperativo apelo do outro.

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