Opinião: Preparar a JMJ 2023
Depois de semanas em que uma série negra de “casos e casinhos” colocou o Governo na mira dos portugueses, eis que, como que por milagre, a agenda mediática se mudou para o custo de um “palco” a construir junto ao rio Tejo, entre Lisboa e Loures.
Num ápice, deixámos de ver Ministros, Secretários de Estado, autarcas e ex-autarcas nas bocas do mundo por terem omitido a verdade, por se terem esquecido que tinham autorizado despesas de 500 mil euros ou por estarem sob suspeitas da justiça (ou, pelo menos, por terem esposos sob suspeita). Como que por acaso (?), o foco da agenda mediática passou do Governo e do Partido Socialista para a Igreja Católica e para o grande evento mundial que vai acontecer em Lisboa, com a presença do Papa, a Jornada Mundial da Juventude (JMJ).
O próprio Presidente da República que, há quatro anos, anunciou (em primeira mão) que Portugal tinha “ganho” à concorrência e conseguido que a JMJ de 2022 se realizasse em Lisboa, pareceu vacilar quando o custo do “palco” veio ao de cima…
Vamos por partes. O mais estranho é ser só agora, 4 anos depois da decisão que atribuiu a JMJ a Portugal, que os decisores políticos parecem ter-se lembrado que era preciso tratar o terreno em que se vai realizar o evento, que só agora, e à pressa, se tenham lembrado de que era preciso construir um palco com a dimensão suficiente uma missa com mais de 1 milhão de católicos de todo o mundo!
Não se entende! Como é que para um evento com esta relevância internacional, uma semana para a qual as paróquias, as dioceses e os movimentos de leigos do nosso país se preparam espiritualmente há quatro anos, um acontecimento que vai dirigir o foco da comunicação social (católica e não católica) de todo o mundo para o nosso País, como é que só à última hora é que estamos a tratar da logística de base, a correr, sem tempo para fazer bem as coisas, atropelando procedimentos e o rigor de uso do dinheiro público? Quem é que se esqueceu, nos três anos que estão para trás, de fazer o trabalho de casa e planear tudo devidamente? Mais tarde ou mais cedo, teremos de apurar responsabilidades e perceber como foi possível isto acontecer!
O apuramento de responsabilidades, porém, não nos pode fazer perder de vista o que é mais decisivo, nesta altura. A JMJ está marcada para agosto e não vai voltar a ser adiada. Em julho o país todo, e Lisboa em particular, tem de ter tudo preparado, tem de haver um recinto para 1 milhão de pessoas, tem de haver logística, transportes, refeições, alojamento, segurança pública, espaços e atividades para todos. E, claro, tem de haver um “palco” capaz de acolher os maiores e mais mediáticos eventos! Esse palco tanto pode ser provisório como definitivo (capaz de, no futuro, servir para outros eventos de massas). Pessoalmente prefiro a segunda hipótese mas talvez já alguém devesse ter pensado nisso mais cedo, não era? Alguém o terá feito? Não parece.
Com os pouquíssimos meses que restam, vamos gastar mais do que devíamos, sem dúvida. No final, havemos de saber quem foi o culpado desta bagunça mas agora, porém, temos de “levar a carta a Garcia” e garantir que a JMJ corre bem! A bem do prestígio de Portugal!
Na minha semana parlamentar participei ativamente na Comissão Orçamento e Finanças e na Comissão de Poder Local, na qual fui relator do parecer sobre a Conta Geral do Estado de 2021. Esta Conta demonstra que o Estado acaba o ano de 2021 a cobrar mais impostos e a executar menos investimento público do que previa: as Contas são “boas” porque o contribuinte paga mais e porque o Estado faz menos obra – assim não vamos lá!


