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Bagagem d’escrita: “Aralsky” – parte II

10 de às 12h14
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No meio do escuro, uma lanterna é-me apontada à face e uma voz tenta entrar em contacto comigo. Aproximou-se, devagar, até que consegui ver de quem se tratava. Um rapaz de pouco mais de vinte anos, percebendo que eu era estrangeiro, faz-me sinal de que era para o seguir. Não fazia ideia de quem poderia ser, mas não tinha outra alternativa senão sorrir e acenar afirmativamente.
Deparo-me agora com mais três homens, estes bem mais velhos. Um deles enche os pulmões para dizer “Polícia!” e pede-me o passaporte. O coração bate agora mais forte, mas a minha carapaça só sorri. Tinha o passaporte comigo, mas a verdade é que estava numa pequena localidade perdida naquele fim do mundo, rodeado de quatro indivíduos que nem sequer estavam fardados a exigirem-me algo que valeria milhares de euros no mercado negro. Arrisquei, e menti-lhes, dizendo que o passaporte estava no meu alojamento, pois assim meteria mais pessoas ao barulho, o que seria uma salvaguarda para mim.
Perguntam-me então onde estou hospedado, e como eu nem sabia o nome do local, fiz uma fotografia à porta principal, antevendo já que iria necessitar de a mostrar a alguém para encontrar a morada. Eles fazem uma cara estranha, falam entre eles, e fazem-me sinal para entrar num carro sem qualquer referência à função deles. O batimento cardíaco acelera, vejo-me sem grandes saídas, mas tento manter pose calma. Esboço um sorriso do modo mais teatral possível e faço o gesto de que agradeço a atenção, mas que vou antes a pé. Insistem, mas eu faço o mesmo.
Mandam então o mais novo, o mesmo a quem foi incumbido o frete de ir ao meu encontro, para me escoltar até ao dito espaço. As ruas estavam desertas e escuras, já que nem existia iluminação pública. Asfalto era algo igualmente inexistente. Apenas se ouvia o ladrar dos cães, que corriam desenfreadamente por detrás de vedações enquanto davam sinal deste pobre intruso em pleno calvário que apenas se tentava orientar com a lanterna do telemóvel para não torcer um pé numa das muitas mini crateras. O jovem puxa do telemóvel e liga a alguém, numa chamada que se estendeu por alguns minutos. No fim, ele desliga e tenta exemplificar-me um “não”. Voltou a telefonar para a mesma pessoa, mas agora passou-me o telemóvel.
Uma voz feminina, muito cordial, a quem agradeci imediatamente a ajuda pois bem precisava de alguém que me entendesse, indica-me que o espaço onde estava hospedado era ilegal, e que por isso não poderia ficar lá e, portanto, teria de ir para outro. O problema é que a alternativa existente era muito mais cara, e eu não estava para gastar dinheiro nisso, pelo que insisti na parte que me competia.
Quando chegámos ao destino, o outro carro já lá estava, estacionado mesmo à porta. Ao entrarmos, foi a confusão geral, com os quatro indivíduos aos berros com o proprietário daquele espaço, que lhes respondia na mesma moeda. Deixei que eles se entregassem aquele circo e fui para a sala onde pernoitava e fingi que ia dormir. Assim, se me quisessem fora dali, teriam de me levar às costas, em modo peso morto.
Um deles, aproximou-se, e aproveitei para lhe apresentar o passaporte. Já em modo de argumentação, para que me deixasse ali dormir, mostrei-lhe o bilhete de comboio que já tinha comprado para apanhar na manhã seguinte, em Nukus, não muito longe dali, mostrando assim que se tratava de uma noite pontual.
Houve uma réstia de sensatez, e ele fez-me sinal para aí ficar e repousar, mas adormeceria embalado pelos gritos dos restantes polícias, que ali continuaram a agredirem-se verbalmente por tempo indeterminado.

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