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Opnião – 4815: O número da nossa vergonha dito na Língua do terror

18 de às 10h45
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Passei muitos anos na escuridão. Foi horrível. Destruiu o meu futuro. Ainda hoje sinto a mão nojenta a acariciar-me a nuca. Ia à minha cama e apalpava-me, perguntava-me se eu já pecara. Vivi sempre sobressaltado. Tinha medo porque era pecador e ia para o inferno. Mandava-me ir buscar rebuçados cada vez que tivesse maus pensamentos! Um dia, consegui 26 rebuçados. 20 rapazes órfãos. O Frei W. era sádico, porco, muito mau. Deitava-se e adormecia. Agora tens de te ir confessar. Tinha tanta raiva de mim, que me batia a mim próprio. Devia ter denunciado. A culpa, a vergonha, faz encolher tudo para dentro. Os pedidos dos padres eram levados a sério, tão sagrados como os dos pais. Recordo-me de crianças completamente influenciáveis, ingénuas. E recordo a religião feita assunto de vida, do levantar, ao deitar. Uma vez por semana, orientação espiritual, num quarto do 1º andar. Cadeiras muito próximas, demasiado próximas. A mão dele nas minhas pernas, as pernas dele entre as minhas. Agarrava-me, mantendo-me encostado às pernas, ao peito. Mãos que me apalpavam. O S, sempre triste, o mais frágil de todos, parecia quase não existir. Quando o meu pai nos ia buscar, dava-lhe boleia até uma casa suja e muito pobre no meio do pinhal. Quando soube que o S se suicidara, lembrei-me, de imediato, do padre B e perguntei-me porquê. As pessoas achavam que fazia parte e o poder católico sobre as consciências é brutal. Toda a gente sabe tudo. Disse que eu precisava de proteção. Por ser novinho. Eu tinha de fazer o que ele queria. Foi a primeira violação. Não contei nada, só dizia que não queria voltar. Obrigaram-me. Quando voltei, o padre usava daquelas chaves antigas, com uma grande argola, e deu-me com a chave na cabeça, de castigo. Levou-me à força para o quarto, pela segunda vez. Lembro-me de acordar durante a noite a transpirar, aos gritos. Sempre me apeteceu proteger as crianças. Muitas, dos 4 aos 14 anos. Uma vez por semana, ao longo de anos. Com a conivência das freiras. Mandava chamá-la e levava-a. Fez queixa. 3 dias sem comer. O Estado devia pagar apoio psicológico às vítimas. Não sou um número. Sou uma pessoa. Penso onde andará esse tarado, pois ele fará mal a outros. Ficámos em silêncio, depois de ele nos ter despido, tocado, sugado, mexido até atingirmos o fim, perverso. Essas situações aconteceram a todos os meninos que ajudavam na Igreja. Contou aos pais, não acreditaram. O pai deu-lhe com o cinto. Eu deixava que ele fizesse, pensei até se gostaria daquilo. A Madre chama-me ao quadro e, diante da turma, diz que sou mentirosa, pecadora. Manda-me ir buscar uma colher de sopa de pimenta. A colher cheia. Fez-me engolir tudo, de uma vez, diante da turma inteira. Ainda sinto a sensação de quase morrer asfixiada, a pimenta na garganta, nariz, pulmões, olhos, ouvidos. Senti-me violentada pela segunda vez, no mesmo dia. Jamais se apagará. Deste abuso resultou uma gravidez, que foi interrompida. A mãe do padre disse-lhe, na minha frente, que ele nunca mais me tocasse ou ela iria matá-lo com as próprias mãos. A minha avó, 81 anos, viu o cartaz. Não queria morrer sem contar o que aconteceu. Nunca ninguém tinha acreditado em mim; agora posso contar a quem acredita. O X não aguentou, vinha a chorar, a chorar. Demorou tanto, tanto, a parar de chorar. Não havia ninguém a quem contar. Sabem o que penso? Onde andará ele? E se um dia for com o meu filho?
[O Estudo dos Abusos Sexuais de Crianças na Igreja Católica, apresentado esta semana, inclui centenas de testemunhos de vítimas. Quem sobreviveu para contar este horror, perversão e depravação absolutos – quem grita, agora, pelo que durante tanto tempo se calou – é heroico e merece que a sua voz ecoe, até que seja feita justiça. Este é o lugar do imperdoável. Vemos, ouvimos e lemos. Não podemos ignorar. Admite-se que terá havido, no mínimo, 4.815 vítimas de abusos sexuais na Igreja portuguesa. São 512 testemunhos, ditos na Língua do terror. A crónica desta semana não foi escrita por mim. Esta é a voz das vítimas. Façam barulho – silêncio, nunca mais.]

 

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1 Comentário

  1. Maria Vasconcelos diz:

    Horror…Malditos,Monstros…não tenho palavras,para tais…BARBARIDADES.

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