Opinião: Carnaval é Binche
Não sendo especial adepta de Carnaval, pensei que me tinha escapado dessa época ao vir para a Bélgica, mas afinal não. O entrudo é igualmente festejado por aqui, com menos influência brasileira e mais tradição histórica. Além dos festejos um pouco por todo o país (no fim-de-semana, que aqui não há tolerância de ponto e afins), há um carnaval que se destaca pelas suas origens na idade média e pelas suas características tão típicas, que o inscrevem nas listas do Património Cultural Imaterial da Humanidade da UNESCO: O Carnaval de Binche.
Depois de dois anos de interrupção devido à pandemia, este ano a celebração voltou em força. O domingo marcou o início, com multidões de mascarados percorrendo as ruas da cidade, ao som da música típica. As mam’selles, homens ostensivamente disfarçados de mulheres, são o prato forte do dia. Mas o momento alto é a terça-feira. O dia começa, de acordo com a tradição, pela madrugada, altura em que as colectividades vão buscar os seus Gilles a casa, numa procissão alimentada a ostras e champanhe (sim, não é Gilles quem quer, mas quem pode).
Os Gilles são as personagens típicas, em fatos bordados com símbolos heráldicos, enchidos com palha, ostentando um exuberante chapéu de cerca de 80 cm de altura, decorado com penas de avestruz. O apogeu do evento é quando todos os Gilles se reúnem na praça principal, batendo as socas de madeira no chão de uma maneira concertada, ao som do compasso forte dos tambores. Particularidade: carregam cestos de laranjas sanguíneas, que arremessam aos espectadores – supostamente apanhar esta fruta deve trazer boa sorte. No local, montras e janelas estão portanto protegidas de possíveis “incidentes” com laranjas. Um bocado intimidante, ver laranjas a saltar de vários lados – não se pode andar distraída!


