O teatro e as dúvidas cheias de futuro
Esta semana assinalou-se o Dia Mundial do Teatro, no mesmo dia em que uma das instituições da cidade de que mais me orgulho, A Escola da Noite, estreou a peça “Trilogia de Alice”, do dramaturgo Tom Murphy, com encenação de Nuno Carinhas. O espetáculo, 75.ª criação d’A Escola, encerra as comemorações dos trinta anos desta companhia de teatro profissional, sediada em Coimbra, desde 1992, e responsável pela gestão e programação do Teatro da Cerca de São Bernardo. Três décadas de arte, resistência e entrega, com a frescura de quem está agora a começar, o amor intocado do início, o questionamento constante dos inconformados. E não será por acaso que A Escola da Noite nos trouxe, nesta data, a “Trilogia de Alice”, que apresenta três momentos distintos da vida de uma mulher, mãe, dona de casa e esposa de um banqueiro de sucesso – uma janela sobre a peregrinação interior de Alice, à procura do seu lugar no mundo, com as suas dúvidas e descobertas, as suas dores e fantasias, sonhos e desilusões. Esta é a história de uma mulher que se conta, contando-nos. E essa é, sempre, a história do teatro.
Nenhuma arte é tão próxima, tão partilhada por todos os intervenientes. Nenhum palco acolhe tanto o encontro. O teatro é uma arte de partilha e comunhão: coloca artistas e público no mesmo intervalo de tempo, num espaço comum, em dádiva mútua. Palavras e texto, representação, conceitos e ideias, dança e música são entendidos em comunidade – em tempo real e sem rede, sem possibilidade de cortes ou repetição de takes. Essa é também uma das definições do teatro: o erro como possibilidade, como potencial de criação absoluta. E, ainda, o combate à impaciência, o respeito pelo tempo, num espaço de demora e de prolongamento sempre que ele é necessário para que a arte se cumpra.
O teatro testemunha o seu tempo, não de forma passiva, mas interventiva: atua sobre ele, questiona, denuncia, provoca, formula hipóteses, aponta caminhos. Interroga-se e interroga-nos. Conta-se, contando-nos: coloca-nos diante da nossa condição, obriga-nos a enfrentar o que somos. É uma escola de pensamento crítico, mas também de humanidade. Forma pessoas para um maior conhecimento do mundo e do outro – mais empáticas, mais sensíveis, menos preconceituosas. Cria melhores cidadãos. Somos mais tolerantes quanto melhor entendemos o que somos. É também esse o papel do teatro, para além do evidente: a novidade, a invenção, a criação de possibilidades. A transgressão.
O teatro precisa de público. Não há teatro sem espectadores, porque é com eles que esta arte estabelece um debate ativo e vital sobre o mundo e sobre a própria arte. Sem público o teatro perde a possibilidade da discussão com o outro, a ponte entre si e a realidade sobre a qual se propõe pensar – que ganha sentidos e leituras novas no espectador. O teatro é, por natureza, interventivo, mas a sua capacidade para intervir depende também de quem usufrui dele: desta disponibilidade para o debate e para a inquietação, da reivindicação que compete ao público: sem ele não há debate, e sem debate todos os palcos são inférteis.
No dossier de apresentação d’A Escola da Noite, escrito no início de 1992, a companhia prometeu “fazer um teatro à medida das dúvidas”. Felizmente tem cumprido, levando a cena todas as dúvidas, transformando-as em pistas e abrindo caminhos novos para dentro de nós e na nossa relação com o mundo e com os outros. Longa vida à Escola da Noite, ao teatro e aos públicos. Que não nos demitamos desse papel: a arte convoca-nos. Trinta anos depois, A Escola da Noite mantém a frescura de quem está agora a começar. E todas as dúvidas em aberto, porque isso também é futuro.


