Opinião: O puto perdido no Liceu
Tinha apenas 10 anos quando partiu da aldeia para a cidade, do aconchego e conforto familiar para um quarto alugado.
Na aldeia ficaram os familiares que mais amava e mais o protegiam, para entrar no espaço de uma família desconhecida. Para trás ficaram também os amigos desde a primeira infância, deixando o vazio para “novos amigos” por conhecer e para as desconfianças e incertezas do desconhecido. O motivo da partida foi a imperial necessidade de abandonar uma escola conhecida e segura para rumar ao universo do liceu onde tudo é novo, diferente, tantas vezes agressivo.
Pobre criança, sentiu-se como o pardalito que voa do seu ninho pela primeira vez e se perde por não encontrar o caminho do regresso. Viveu a dureza da partida do emigrante que sai com a sua mala de cartão na mão e se vê perdido numa grande metrópole onde não conhece ninguém, nem mesmo a língua para pedir ajuda. Um enorme salto no escuro.
A entrada do Zé no liceu, nome abreviado do garoto, não foi gloriosa. Nessa época só se podia entrar de fato e gravata, e o Zé estava habituado a vestir-se simples e prático. O pior é que o fato encolheu e ele cresceu, já não cabia lá dentro, e ainda não tinha formação suficiente para fazer o nó da gravata, nem tinha o pai por perto para dar uma ajuda. Olhava para os meninos urbanos e “queques” e não se sentia bem na sua pele. As diferenças sociais, reais ou sentidas, entram mesmo neste jogo. Foi preciso tempo para conquistar o espaço onde se movia.
A transição da escola primária para o liceu foi a mudança do “cosmos” para o “chaos”, do universo harmonioso e ordenado para o ambiente da dispersão e da confusão total, de um professor que representa a autoridade, a ordem e a harmonia, que te acompanha a cada momento, para uma dezena de professores que não te conhecem nem fazem questão de conhecer. O currículo tipo “manta de retalhos”, que ainda permanece, já vem dessa época. Há miúdos, geralmente bem respaldados, que se adaptam bem a essa “mixórdia”, outros perdem-se na multidão de professores e na imensidão de matérias que deviam estar mais compactas entre si, mais entrosadas com o mundo e a realidade da vida e aparecem totalmente desligadas.
O Zé, desamparado, não se deu bem neste cenário e os primeiros anos não foram um mar de rosas. Mas cresceu, socializou-se e ganhou maturidade, sobretudo a partir do quarto ano, em que apanhou um valente chumbo. Nesse tempo, salvo erro 9 disciplinas, reprovava quem tivesse duas negativas, mesmo que tivesse média global próxima ou mesmo superior ao Bom. A Matemática éramos mesmo ignorantes porque no 3º ano o professor foi um velho militar, estropiado da guerra, à falta de melhor, incapaz de comunicar e ensinar fosse o que fosse, e a professora do 4º ano foi implacável: só não reprovaram os que tinham explicadores particulares. A professora de História, uma víbora que tinha o prazer sádico de reprovar os alunos, foi a parelha ideal para consumar o desastre: em 28, foram aprovados apenas três.
O regresso à aldeia e a casa no fim do ano foi doloroso. O pai chorou, pela falta de juízo do filho, e o filho chorou porque nunca tinha visto o pai a chorar. Foi um desgosto que ficou para toda a vida, não tanto pelo chumbo, mas pelas lágrimas do pai.
Mas há males que vêm por bem. A partir daí, o Zé jurou a si mesmo que nunca mais faria sofrer o pai. E cumpriu. Uns anos mais tarde, o desgosto cedeu o espaço ao orgulho e o pai apresentava o filho como “o meu filho doutor”. Foi uma lição bem aprendida.
Pai é pai e o Zé era eu.


