Opinião: Histórias da denúncia de uma cirurgiã
Na semana passada, os portugueses foram surpreendidos nos meios de comunicação social com denúncias de uma médica interna do primeiro ano de Cirurgia Geral no Hospital de Faro, alegando más práticas graves de um colega que colocavam em risco a saúde e a vida dos doentes. Não conheço a médica em causa, não conheço o funcionamento do Serviço de Cirurgia do Hospital de Faro, e por isso a opinião que aqui deixo é livre, sem conflito de interesses, visando apenas uma reflexão equilibrada sobre o assunto.
a) Da parte da denunciante há que questionar o seguinte:
Qual a competência técnica de uma interna do primeiro ano de Cirurgia para se pronunciar sobre má prática e erro médico? É no mínimo estranho que uma jovem médica não especialista, com apenas 3 meses de trabalho numa formação que dura 6 anos, emita comentários tão severos sobre colegas especialistas, e sobre o serviço onde trabalha. Como se explica que com apenas com 3 meses de trabalho, tenha já vários litígios de relacionamento com diversos colegas do serviço? Poderão estes litígios estar na base das acusações que agora são feitas? Segundo a comunicação social, a médica relata no seu Facebook que era seguida em consultas de psicologia por cansaço e frustração no trabalho. Estará a jovem médica emocionalmente estável e na plenitude das suas capacidades mentais?
b) Da parte do(s) denunciado(s) há que questionar o seguinte:
Será impossível que possam existir más práticas cirúrgicas efetuadas por determinado cirurgião num determinado hospital? Num universo de milhares de cirurgiões no país a trabalhar em centenas de hospitais públicos e privados, é mandatório admitir que possa existir um ou mais cirurgiões que não reúnam as condições ideais para o exercício da sua profissão. Tal não é nada bom, mas é possível que possa ocorrer. Bons e maus profissionais existem em todas as profissões e a Medicina não é exceção. Temos também de manter a mente aberta e admitir (admitir não é concordar!!) que possa existir alguma conivência passiva do Diretor de Serviço, por um colega especialista procurando desvalorizar eventuais práticas menos adequadas. Muitas vezes não é uma questão apenas de corporativismo ou solidariedade institucional. Na verdade, há hospitais com enorme escassez de recursos humanos, onde o “mau” é melhor que o “nada”. É uma triste e lamentável realidade que teremos de admitir, no mínimo, como possível.
A situação do Hospital de Faro é de uma enorme gravidade. Senão vejamos:
Se partirmos do pressuposto de que a jovem médica levantou suspeitas infundadas e não comprovadas, colocando em causa a dignidade e o mérito profissional do médico, do serviço e do seu diretor, motivada apenas por conflitos de relacionamento institucional, ou por instabilidade emocional, então a situação é muito grave.
Se partirmos do pressuposto que as acusações são todas verdadeiras, e que efetivamente configuram más práticas reiteradas pelo mesmo cirurgião, e de que o diretor de Serviço tem conhecimento, e é conivente, então a situação é muito grave.
Independentemente da verdade ou mentira das acusações, a forma como a jovem médica expõe o assunto viola princípios hierárquicos, deontológicos e morais. Segundo os relatos da comunicação social, na mesma semana em que a jovem médica diz ter participado os factos à Polícia Judiciária e à Ordem dos Médicos, fez divulgação dos mesmos na comunicação social e por isso ficou claro que, aquilo que pretendia, era ver ser feita justiça na praça pública e não no lugar onde ela deveria ocorrer.
Espero que o Ministério Público e a Ordem dos Médicos façam o trabalho que lhes compete de forma célere, com o cuidado e ponderação que se impõe na profunda análise e averiguação de todos os factos. Más práticas médicas não são aceitáveis, nem toleráveis, devendo aqueles que as praticam responder por isso nos órgãos próprios. A conivência passiva de diretores de serviço com más práticas de colegas é tão grave como as más práticas em si mesmas, devendo responder de igual forma nos mesmos órgãos. A denúncia de más práticas está prevista no Regulamento de Conduta da relação entre médicos elaborado pela Ordem dos Médicos, não constituindo falta ao dever de solidariedade entre colegas, mas deve ser efetuada de forma objetiva e com a devida discrição junto da Ordem dos Médicos, sendo incorreto fazer afirmações ou declarações públicas contra colegas.
Independentemente do veredicto final, ninguém sairá a ganhar, todos sairão a perder: A médica poderá ter hipotecado em definitivo a sua carreira profissional, o Serviço de Cirurgia, o seu diretor e o cirurgião acusado dificilmente verão o seu prestígio reposto, e os doentes olharão sempre com desconfiança qualquer internamente naquele serviço e naquele hospital atendendo ao mediatismo que foi dado de forma inaceitável a um assunto que, pela sua gravidade, requeria o maior dos cuidados na sua abordagem.


