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Opinião: Tony Judt

22 de às 14h55
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Ill fares the land, de 2010, com a abstrusa tradução portuguesa de Um tratado dos nossos atuais descontentamentos, é o derradeiro e fundamental livro de Tony Judt, uma vibrante apologia do Estado Social, do keynesianismo e da social democracia.
Livro comovente, obra testamento dedicada aos filhos menores, ditada no leito de morte por um Tony Judt já incapaz de escrever, e sequer de falar. Livro marcado por uma urgente vontade de resgatar um futuro sombrio, de denunciar a natureza profundamente desumana de um neoliberalismo dominante e triunfante, desonerado de peias éticas e movido pela feroz voracidade do lucro a todo o custo.
Judt, com Zygmunt Bauman e o conservador Roger Scruton, recentemente falecidos, foi, na senda de Raymond Aron, um dos raros intelectuais comprometidos dos últimos decénios. Um intelectual avesso ao politicamente correto, alérgico às perigosas neutralidades éticas das correntes multiculturalistas, denunciante implacável das esquerdas caviar rendidas ao capital, crítico mordaz e desalentado dos Blairs, Clintons e Obamas deste mundo.
Para Judt, a social democracia e o Estado Social, dos “trente glorieuses” anos europeus posteriores a 45, representam um momento único e sem paralelo histórico. E, acima de tudo, representam o singular triunfo de uma concepção antropológica ancorada no humanismo radical do cristianismo evangélico (e não no cristianismo eclesial ) e na indignação ética do jovem Marx (e não no falhado socialismo real).
Sublinhando que o capitalismo não é sinónimo de democracia, pois floresce viçoso em ecossistemas totalitários, como o chinês, e autocráticos, como o Chile de Pinochet, Judt estabelece clara distinção entre o capitalismo selvagem das Américas e o capitalismo social – o capitalismo domado, domesticado e açaimado pelo Estado Social – da Europa do pós guerra.
No selvagem capitalismo da selvagem América não há lugar para desempregados, velhos, mães solteiras, doentes, toxicodependentes, alcoólicos, negros, asiáticos, latinos, sem abrigo, sem dinheiro. Não há lugar, nem lugares, para losers nem para brancos pobres, triste white trash.
No esquecido, e quase perdido, capitalismo social europeu, que encontra no Papa Francisco o último dos moicanos, são precisamente esses deserdados da fortuna que merecem a solicitude amorosa, e não a altaneira caridade, da comunidade e do Estado.
Economia social de mercado, modelo social europeu, coesão económica e social europeia e Europa Social representaram, até à entrada dos anos 90, a semântica e a prática desse capitalismo social.
Depois veio 89, e vieram a queda do Muro e a queda das máscaras.
Mas, se o materialismo histórico de Marx e de Lenine se revelou de uma cientificidade digna de uma cartomante de feira, o materialismo econométrico de Friedman e dos seus sequazes de Chicago, nessa e noutras sedes, não lhe fica nada atrás.
E essa é mais uma razão para regressar a Judt, e ao ao seu moralismo político sem concessões.
Pois se a filosofia, hoje, só vale como ética última, como aponta Levinas, também a política só vale como praxis ética, sob pena de mais não ser que um real caminho para a servidão.

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