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Opinião: Pad-Zé e Teixeira Bastos

24 de às 09h18
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“Pad-Zé” (Alberto Costa, 1877-1908 ) é um dos mais memoráveis personagens da velha academia coimbrã: estudante boémio e espirituoso, esteve na génese das pícaras celebrações do Centenário da Sebenta de 1890, tendo deixado registadas as suas lembranças do tempo de estudante na “Rapida excursão pelas Memorias do meu tempo de Coimbra” que precedem ”O Livro do Doutor Assis”. Este livro, por sua vez, é um do registo dos professorais e excêntricos ditos do lente de Direito António de Assis Teixeira de Magalhães ( 1850-1914 ).
Henrique Teixeira Bastos ( 1861-1943 ), por sua vez, foi um notável professor da então Faculdade de Filosofia, precursora da posterior Faculdade de Ciências (atual Faculdade de Ciências e Tecnologia), tendo sido responsável em 1896, com a assistência do jovem estudante de Medicina Egas Moniz, pelas primeiras radiografias efetuadas em Portugal, pouco depois da descoberta dos raios-X por Röntgen, em Munique ( 1895 ). O equipamento utilizado por Teixeira Bastos encontra-se hoje exposto no Museu de Ciência da Universidade. Esta experiência seria determinante para a formação científica de Egas Moniz, que recordaria mais tarde a “alegria que tal acontecimento determinou na minha vida” e que manteria vivo interesse pela área da imagiologia médica.
Apesar de Teixeira Bastos, lente de Filosofia, não ser professor de Alberto Costa, que cursava Direito, no pequeno mundo coimbrão dos fins do século XIX acaba por se estabelecer uma inimizade entre os dois. Pad-Zé descreve Teixeira Bastos como “muito snob, muito pudico, muito effeminado” e numa tarde de Junho de 1899 resolve bordar “conceituosas e ligeiras considerações nas mimosas faces e aos próprios ouvidos castos de Teixeira Bastos”. O lente manifestamente não aprecia as considerações, e o teor e gravidade das mesmas valerá a expulsão por dois anos do aluno impertinente, por processo académico instruído pelo Reitor Avelino Calisto. Passa então dois anos de exílio em S. Tomé, onde “o seu espírito, rasgado e aberto às mais ousadas iniciativas, (…) fomentara febrilmente o comércio e a agricultura, no trafego de escravos e na exploração do cacau, que enriquecia a metrópole”. Regressava outro a Coimbra (“e rico… – segredava-se pela Associação comercial”). As finanças são contudo rapidamente depauperadas na vida boémia de Coimbra. Formado em 1904, torna-se cronista parlamentar no jornal “O Mundo”, suicidando-se em 1907.
A Universidade Portuguesa é hoje felizmente muito diferente da de Pad-Zé e de Henrique Teixeira Bastos: os alunos deixaram de ser membros de uma pequena elite privilegiada que se podia dar ao luxo de desbaratar as oportunidades de formação em favor do “carpe diem”. Os docentes são hoje, em geral, investigadores que contribuem para a criação de conhecimento, com forte impacto na sociedade, não se limitando a reproduzir conhecimento importado. As qualidades de um e de outro (a imaginação, criatividade, independência e espírito livre de Pad-Zé; a determinação, conhecimento, empenho e labor de Teixeira Bastos) são hoje contudo mais necessárias do que nunca.

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