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Opinião: Sempre

29 de às 10h52
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Fez-se como se faz, ainda hoje, em algumas comunidades rurais da nossa terra. Instalou-se o boneco no meio da praça e o povo foi-se pondo em seu redor em atitude cerimonial. Devidamente preparado para a consumição, o “facho” está vestido de fraque e cartola a condizer, pançudo como lhe compete. No ritual em que será protagonista, o fogo purificador retomará o valor simbólico dos costumes de memória pagã da Serração da Velha, do Enterro do João ou da Queima do Judas. Estamos no vinte-e-quatro de um tempo antigo que ali, no Largo da Sé, se exconjura ruidosamente para que nunca mais aconteça.
Neste ano de 2023 chegou à Sé Velha mais gente do que o habitual. Está ali quem ainda se recorde de ter descido a Avenida, em Abril de 1974, numa torrente de gente fixada em papel de fotografia por Varela Pècurto e pelo Formidável. E está, sobretudo, gente jovem, nascida já em democracia, ciente de que o futuro é tarefa de seu encargo. Muitos velhos, muitos novos, celebrando por igual a Liberdade que – como se viu nos discursos da “nova” direita no Palácio de São Bento, em Lisboa – não está livre de ameaça.
Há mais de uma década que o Ateneu de Coimbra acolhe na Rua do Cabido as vontades celebrativas de várias dezenas de organizações que insistem na comemoração popular do 25 de Abril. Trata-se de estruturas associativas, sindicatos, secções e organismos da AAC, órgãos do Poder Local e muitas mais que, ano após ano, regressam à Avenida, em passos e intenções que são os de um Abril intemporal. O povo responde à chamada, cada vez mais numeroso, furtando o 25 de Abril à morte certa que ocorre sempre que uma celebração se encerra nos ambientes oficiais, aqueles em que as pessoas se tratam por “excelentíssimas” e o fogo, a jubilosa gritaria, a música e a dança, são substituídos pelo discurso institucional e um ou outro ranger de dentes dos fascistas permanecentes nas instituições da democracia.
Voltemos então ao Largo da Sé, que é lá que o povo se distribui pela Rua do Cabido acima e pela encosta que vai desde a antiga maternidade ao Café Oásis. O sacerdote improvisado já está a regar o “facho” de combustível fedorento, cresce o rumor da multidão à medida que a o relógio se chega à meia-noite – é o Ano Novo que se aproxima, mas desta vez em Abril, e em vez de gingobéis de importação vai cantar-se uma senha de renovada prontidão.
Riscou-se o fósforo, o “facho” é abraçado pelo fogo. Não arderá já por conta da guerra colonial, das prisões fascistas, do lápis azul, da sujeição à luta clandestina e por culpa de catarinas e pintores assassinados, que o canto de protesto imortalizou. Arde agora por males de vidas inteiras de precariedade, de privatizações de esbulho, de RJIES antidemocráticos, de leis laborais predadoras, de PAC’s criminosas e acordos de “bloco central” que interromperam caminhos de soberania e de desenvolvimento.
As colunas de som espalham na Alta a voz inicial de José Afonso, mas a Grândola Vila Morena é, de imediato, a de mil vozes refletidas pelos muros da Sé Velha. Fumegam os restos do “facho”. O brado da multidão é já o de 25 de Abril. Sempre.

Pode ler a opinião na edição impressa e digital do DIÁRIO AS BEIRAS

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