Opinião: Europa e África
A invasão russa na Ucrânia foi um evento que nos mostrou de forma clara que o mundo está a caminhar para uma divisão entre dois polos, como não se via desde a Guerra Fria. De um lado, temos Europa e Estados Unidos; do outro, China e Rússia.
No meio desta luta de poder, encontram-se vários países africanos que passam por crises de dívidas soberanas e se encontram numa encruzilhada difícil, sem saber qual o melhor caminho a seguir.
O Gana é um desses países. No terceiro trimestre de 2022, iniciou negociações com o FMI para definir o pacote financeiro de ajuda ao país, e prevê-se que, na melhor das hi-póteses, o acordo seja alcançado apenas no final do segundo semestre de 2023. Um dos vários bloqueios nessas negociações tem sido a necessidade da aprovação da China no processo de renegociação da dívida externa ganesa. Embora a China tenha menos de 5% do total da dívida externa do Gana, tem um papel fundamental nessas negociações. A China tem sido consistente em criticar os credores ocidentais europeus e americanos por não aceitarem o perdão de parte da dívida dos países devedores, enquanto Pequim é so-licitada a fazê-lo em créditos concedidos bilateralmente.
Além disso, a China deve estar preocupada que o acordo com o FMI possa abrir caminho para que o Gana se alinhe mais estreitamente com as potências ocidentais, minando po-tencialmente a influência da China na região.
No geral, as críticas da China ao acordo do Gana com o FMI refletem suas preocupações mais amplas sobre a influência ocidental na África e seu desejo de promover sua própria agenda econômica e política no continente.
Neste jogo de forças, a Europa parece ser o elo mais fraco. De todas as potências credo-ras, é quem mais sofre com a falta de desenvolvimento do continente africano, nomea-damente devido ao constante fluxo migratório vindo de África, e é quem parece ter maior dificuldade em lidar economicamente e culturalmente com os países africanos. A falta de uma liderança europeia forte e uma estratégia clara faz com que a África, cada vez mais, olhe para outros parceiros que não o seu “vizinho”.”


