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Opinião: As missas de Schubert

22 de às 13h15
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O extraordinário compositor vienense Franz Schubert escreveu, como era da praxe, várias missas. Trata-se de obras corais para serem executadas na eucaristia católica, em que, seguindo uma tradição secular, se coloca em música alguns textos que se repetem em todas as celebrações da missa e que podem ser cantados. Entre eles, o Credo ou símbolo da fé (Creio em Deus, Pai todo-poderoso, etc)
O Credo representa sempre um grande desafio para os compositores, dada a extensão do texto canónico, consensualizado ao fim de grandes disputas teológicas em dois célebres concílios do século IV, em Niceia e em Constantinopla.
Contudo, Schubert tropeça numa dificuldade relativamente ao Credo que, pela sua universalidade, merece reflexão. A frase “Creio na Igreja” apresenta-se-lhe como uma dificuldade inultrapassável, pelo que a elimina sistematicamente. O Credo das suas missas resulta assim amputado, exprimindo Schubert desta forma a sua objeção a uma instituição em que lhe era difícil acreditar.
Esta dificuldade é de facto um grande obstáculo para todos os que refletem sobre as declarações sobre a fé expressas no Credo: a Criação a toda a hora remete para o Criador, ainda que muitas vezes se lhe mude convenientemente o nome para harmonia do Universo ou da Natureza (como faziam por exemplo Espinosa ou Einstein). Jesus Cristo é uma figura histórica consensual, digna da maior admiração muito para além dos limites do cristianismo. A necessidade quotidiana de sabedoria, inteligência, conselho, fortaleza, ciência, piedade e temor de Deus permanentemente requer que o Espírito Santo, mesmo que não existisse, tivesse de ser inventado… Mas a Igreja? Como é que é possível acreditar nesse aglomerado de gente que a toda a hora desdiz Pai, Filho e Espírito Santo?
Ora a Igreja só tem utilidade enquanto for capaz de transmitir essa mensagem simples mas poderosa de que o Amor (que para os cristãos é Deus) tem precedência sobre tudo, exortando cada um a amar o próximo como a si mesmo. A eficácia na transmissão desta mensagem não deixou de transparecer, ao longo dos séculos, em tantos homens e mulheres que a testemunharam, apesar de cruzados, inquisidores, eclesiásticos mundanos e o diabo a sete (literalmente) tudo terem feito e continuarem a fazer para a abafar.
O próprio repúdio schubertiano, bem como as suas missas, acabam por constituir uma homenagem à própria Igreja que se foi reinventando, de forma a conseguir guardar essa mensagem mais preciosa e transmiti-la de geração em geração, resistindo a formas verdadeiramente demoníacas de a abafar a partir de dentro. Nessa perene resistência, sobretudo nos momentos mais negros, houve sempre homens e mulheres que testemunharam e transmitiram fielmente a mensagem do Amor, por vezes pagando com a própria vida. O facto de essa mensagem ter chegado até Schubert (e até nós) de forma a iluminar claramente os comportamentos hipócritas é disso testemunho eloquente. A arte produzida pelas diferentes gerações é ela própria um legado precioso que também testemunha a perene reinvenção dessa mensagem universal. Ouça-se devotamente, assim, as missas de Schubert.

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