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Opinião: Também

05 de às 14h19
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Não fora aquele “também”, dilatando a perplexidade geral, e ficar-nos-íamos pela confirmação de um lapso. O problema é que, à pergunta da jornalista sobre se “afastá-lo [ao professor acusado de ‘propaganda russa’] teve a ver com a defesa da Universidade e do bom nome da Universidade?”, não há como responder “também”. Pois se a simples defesa da Universidade e do seu bom nome não são razão bastante e volumosa, que outros também-motivos sustentaram a decisão? Que razões sobrantes precisaram de pareceres jurídicos de maior entendimento do que o da Constituição da República? Que também-critério de defesa da Universidade justificou a desvalorização dos diversos patamares de governo da Instituição, assim convertidos em acessórios “tambéns”, de que não se quer mais voz do que a da porventura reverência?
Na pequenez de duas sílabas, apenas, poucas palavras terão a amplitude de um “também”, quando proferido pelo dirigente máximo da Universidade, numa situação de ressonância nacional. Porque falar em nome da UC é assumir responsabilidades no terreiro da Academia, mas também na praça da Democracia. É levantar voz em palcos bem mais subidos do que o espaço criativo dos pareceres jurídicos. É merecer, ou desmerecer, uma visibilidade nacional e internacional em que a observância integral dos direitos de trabalhadores e colaboradores não pode ser um “também”, um complemento, um já-agora.
Na peça que passou na RTP, lamenta-se o Reitor de maltrato, mas o lamento parece-me injusto. Em todas as posições, crónicas, artigos de opinião que trataram o assunto com a elevação que se exige, percebeu-se incredulidade, espanto e indignação. Mas maltrato não. Maltrato sofreu o Reitor Teixeira Ribeiro às mãos de Sottomayor Cardia, ministro primeiro da sabotagem do Ensino Superior público, pai do subfinanciamento e inspirador do RJIES. O maltrato, para o ser, e assim foi no caso de Teixeira Ribeiro, é sempre acompanhado da solidariedade dos pares – por ser injustiça que, caindo sobre um, é percebido por todos como adiamento do seu próprio maltrato. Através do apoio de estudantes e correligionários, em levantamento cívico contra a prepotência, a Academia confirmou a Teixeira Ribeiro a velha evidência de que amor com amor se paga. Pelo contrário, no caso que aqui nos traz, a Academia emudeceu, primeiro, e depois manifestou-se pela defesa do “direito ao contraditório e à presunção da inocência”, lamentando a ausência de “um processo de averiguações e uma clarificação por parte da Universidade dos factos que estiveram na base da medida tomada” – chama-se justiça e é um pilar da democracia, de aplicação universal e inquestionável.
Está por saber se o tal “também” não é apenas o reflexo da gritaria de milhazes grotescos, animadores da turba nos intervalos da vida, porta-vozes de xenofobias de conjuntura. É segredo. Mas se, entretanto, conseguirmos deter a universal tragédia, que se anuncia cavalgando “tambéns” de incerto conteúdo, havemos de rir-nos dos atropelos disfarçados de História. E havemos de perceber que, neste tempo de equívocos, hipocrisias e desinformação, as juras de fidelidade aos “valores europeus” tropeçam sempre no corpo inerte de Aylan Kurdi, deitado de borco na areia, às portas do Mar Egeu.

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