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Opinião: À Mesa com Portugal – Contracorrente

16 de às 10h02
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A classificação da Dieta Mediterrânica como Património da Humanidade terá tido um resultado muito positivo para todos. Chamou a atenção para a riqueza nutricional, agrícola, cultural e social de alguns produtos, para além de que reforçou o caráter familiar e comunitário da alimentação.

No entanto, julgo que é tempo de interrogarmos o modo intensivo, quase claustrofóbico e sufocante, com que esse discurso entrou na vida das pessoas e das comunidades. Sou uma admiradora e defensora da cultura gastronómica que herdámos do Mediterrâneo, mas não suporto ver o aproveitamento que se faz dos seus ideais. Da atividade agrícola à farmacêutica, qualquer coisa que se queira vender recorre à Dieta Mediterrânica. É, esta, justificação para toda a ação de venda, mensagem publicitária que cai sempre bem.

Mas se devemos estar muito atentos para o uso indevido do conceito por parte de grandes estruturas empresariais e corporativas, podemos fazer mais. Podemos interrogar o nosso comportamento alimentar e repensá-lo à luz da realidade de hoje, do que sabemos e do que temos. O caso do azeite, é um tema que me impressiona em particular. Proclamamos os benefícios do azeite, incutimos o seu consumo na ideia de uma vida mais saudável e mais saborosa, contudo, não pensamos nas consequências que tal pode acarretar, como por exemplo, as quantidade de azeite que teremos de produzir para cumprir todas as necessidades. A velocidade a que os olivais intensivos vão proliferando pelo Alentejo e pelo Ribatejo deixa-me angustiada, pois sei que, muito em breve, teremos os solos gastos, áridos, desidratados de tamanho esforço de produção.

Sempre que viajo e olho para esses olivais, repenso a minha forma de usar o azeite na cozinha. Repenso as ideias feitas de que parecemos gostar tanto. Até porque, no que respeita à sua cultura alimentar, Portugal recebeu influências de outras geografias e o seu património inclui várias abordagens. A riqueza da nossa gastronomia está nisso mesmo, no muito que recebeu, no muito que deu, no modo como soube utilizar todos os recursos ao seu alcance e fazer da cozinha um lugar, sempre, pleno de sabor. Tema controverso e contracorrente, sim eu sei. Mas necessário.

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