Bagagem d’escrita: Última cruzada em Petra-Parte I Jordânia – 2004
Nos primórdios da minha adolescência foi-me apresentada pelo ecrã da televisão umas das minhas primeiras referências da minha vida quando vi, e depois revi vezes sem conta os filmes do Indiana Jones. Fascinava-me aquela figura aventureira que dedicava a sua vida ao ensino da História e da Arqueologia, ao mesmo tempo que trocava o seu fato asseado pela sua verdadeira pele, a sua roupa de viagem de tons quentes, onde sobressaía a sua camisa, o casaco de cabedal, bem como o clássico chapéu, adereços que devem feito sonhar milhões de seres em todo o mundo.
O meu preferido dessa trilogia era precisamente aquele que a encerrava, “A Última Cruzada”. Estavam lá todos os ingredientes que me aceleravam pelas melhores razões o meu batimento cardíaco, mas a cereja no topo deste já por si majestoso bolo era o cenário final, que na altura ainda me faria pensar se não seria uma soberba criação levada a cabo num estúdio de Hollywood. Falo de Petra, mas mais concretamente do seu icónico Templo do Tesouro, o mais emblemático edifício desta “cidade rosa” da antiguidade.
Na altura, enquanto procurava mais informação sobre esta misteriosa construção nas páginas de alguns livros da biblioteca da minha terra como um arqueólogo à procura de um pequeno tesouro, prometi a mim mesmo que um dia, quando fosse mais velho e tivesse algum dinheiro, esse seria precisamente um dos primeiros destinos das minhas viagens.
Quando a vontade é muita, por vezes o universo conspira a nosso favor. Com as poupanças que fui com muito esforço juntando enquanto estudante de História na Universidade de Coimbra no seu último ano de curso tomei a decisão de, poucos dias depois de receber a nota do último exame, aquele momento em que atingimos aquela plenitude da autorrealização do dever cumprido no fim dessa fase da vida, dar uma prenda a mim próprio pelo que alcançara e cometer a loucura de comprar um bilhete de avião só de ida para a Jordânia. E já que estava em modo insano, levei comigo o Pedro, o irmão mais novo dos meus melhores amigos, que na altura tinha somente quinze anos de idade. A ideia era muito simples: aterrar em Amã, a capital, e ir visitar Petra. E depois logo se via como regressarmos por via terrestre, até Portugal. Isto daria pano para muitas mangas que fariam, nos dias que correm, as delícias de alguns jornais sensacionalistas, da ira de comentadores de tudo e mais alguma coisa e do alarme social da CPCJ.
Em finais de julho, partimos.
Apesar de já ter realizado uma incursão pela Turquia no Verão anterior, onde recebi o meu batismo de viagem pelo Médio Oriente, não deixei de sentir um choque imenso quando percebo que agora é que era a sério pois o outro país era afinal a anteporta para o que aqui me seria apresentado como o mundo árabe islâmico.
Aterramos num universo que ficava a anos-luz da nossa zona de conforto. O trânsito é caótico, pouca gente nos entende, tudo está escrito em árabe, o que para nós equivalia a chinês. Com muito custo, arranjámos lugar no fundo de uma velha carrinha da década de 70 que nos confirmou a fiabilidade dos veículos alemães e lá seguimos para Wadi Musa, a cidade encostada às ruínas do nosso destino.
Bilhete comprado, chegou o momento da apoteose, a caminhada magistral através do quilómetro e meio do siq, o estreito desfiladeiro ziguezagueante que nos levará à exaltação dos sentidos perante o tão aguardado Templo do Tesouro. Olhamos um para o outro com aquela cumplicidade de um “é agora” e entramos a passo largo de ansiedade naquela garganta rochosa e altaneira como se da reta final de uma peregrinação se tratasse, com o coração a bater forte. (continua)


