Opinião: À Mesa com Portugal – Molhar o Pão
Às vezes, tratamos a comida por tu e abocanhamos, torcemos, roemos, chupamos, agarramos como se a comida fosse fugir, comemos à pressa e sem tirar os olhos do prato. Outras vezes, parece que temos medo de tocar naquilo que temos no prato e, timidamente, vamos rodeando a comida como numa conversa que não leva a lado nenhum. Noutras situações, somos chiques, observamos toda a composição da mesa e, intimidados, agarramos os talheres como se fossem de cristal e nem sequer desafiamos o que temos à frente. Desistimos e deixamos na borda do prato mesmo sabendo que o estômago ainda pede por mais. Fingimo-nos de esquisitos, comentamos uma apetência ou outra e lá colocamos os talheres em sinal de já não iremos comer mais. Neste caso, somos tão politicamente corretos, tão snobs que a comida fica a falar sozinha no prato e nós a olhar para os outros e a ver se eles estão a olhar para nós. A comida existe sozinha sem nós lhe darmos qualquer atenção.
Uma razão das razões para não comermos ostras, é que não sabemos comê-las. Damos a desculpa que não gostamos muito, que temos medo de não gostar, que não estamos habituados, mas a verdade é que não sabemos como comer aquela coisa que parece meia líquida, meia gelatinosa e que parece fugir à mania de comer com talheres.
Só acho que seríamos muito mais felizes se fosses mais honestos com a nossa vontade de comer. Não estou a dizer que, em jantares de cerimónia, façamos a figura de quem parece estar em jejum há 15 dias, mas no nosso dia se, em vez de nos armarmos em queques, formos diretos ao que interessa vamos apreciar a comida pela comida e não pelo ato de estar a comer o que quer que seja. É por isso que ver a primeira trinca das crianças é uma coisa tão fantástica. Genuínas e sem filtros, não se importam com os julgamentos sociais.
Sou tão feliz quando molho o pão e a broa no molho de escabeche ou de vinha d’alhos. Quando rapo o tacho do arroz doce sinto que tenho outra vez 12 anos. E roer os ossos? Feliz! E molhar o biscoito no café ou no leite? Saudades… Pôr a sardinha em cima da fatia da broa e deixar que ela se escangalhe naturalmente na minha boca. Cortar a fatia grossa de queijo e fingir que se está a comer com pão. Ou então, encher a rabanada de doce de ovos e, no fim de a comer, lamber o garfo com os restinhos que ainda ficam agarrados. Começar uma barra de chocolate e repetir mil vezes que é só mais um quadradinho. Felicidade na palma da nossa mão e no ato de comer. E não, não é pecado.


