Opinião: Despedida de um ano letivo
Com o ano letivo em maré de despedida, alunos e professores partindo para uma vilegiatura na direção da praia, do campo ou de países mais ou menos tranquilos, será o momento apropriado para fazermos um breve balanço do que aconteceu nas nossas escolas.
À cabeça da retrospetiva vem a anormalidade que se instalou nos estabelecimentos escolares, como se os anos do covid não tivessem bastado para perturbar as aprendizagens dos alunos.
E se a preocupação que nos assalta ao olharmos para a atipicidade do funcionamento das escolas, teremos de nos regozijar pelo facto dos exames terem decorrido com muita tranquilidade, fruto de medidas excecionais que se chamam serviços mínimos e bom senso de uma larga fatia do corpo docente que, mesmo zangado por não ver satisfeitas algumas das suas reivindicações, soube pôr acima de tudo uma forte consciência profissional que urge ressaltar.
Mas as paragens vividas ao longo do ano justificam que ponderemos seriamente quem saiu mais prejudicado; e é indiscutível que foram os alunos, todos é verdade, mas de modo muito especial aqueles que têm mais problemas sociais e financeiros, para quem a escola pública é quase o único elevador social que encontram nas suas vidas.
Talvez por isso mesmo, não se pense que na dicotomia ensino público/ensino privado este colherá muitos frutos, nascidos da anormalidade do funcionamento do ano letivo. A haver ganhos eles serão mínimos, dada a exiguidade financeira de muitos dos que frequentam as escolas públicas, que não lhes permite sequer sonhar com qualquer outra alternativa.
Outro dado do balanço não poderá esquecer a valorização da profissão docente. É inquestionável que ao longo dos últimos anos o exercício da docência tem vindo a perder pontos no reconhecimento social. Tenho como certo que as irregularidades dos últimos anos na educação e ensino deveriam merecer do governo uma atenta preocupação para garantir uma educação de qualidade, o que passa sempre por dar aos professores o reconhecimento que eles merecem.
Em boa verdade, e polemicamente, entendo que nos últimos anos, quer nos governos do PSD quer nos do PS, a escolha das equipas ministeriais não tem obedecido a uma busca de qualidade, de conhecimentos, de um projeto. David Justino, Nuno Crato, Maria de Lurdes Rodrigues, Tiago Brandão Rodrigues são os exemplos acabados do que de mau se pode fazer. Curiosamente, o atual ministro tem sido o mais contestado dos últimos anos, ele que terá sido o melhor deles todos e o que mais se empenhou na tentativa de encontrar algumas soluções para a educação e para os seus profissionais.
Mas valorizar a profissão docente deve começar na formação dos futuros professores, não apenas com uma forte componente na parte pedagógica e científica, mas também na preparação para uma escola diferente, que deixe de lado os conceitos dos séculos XIX e XX e que assuma que a escola do século XXI traz necessidades acrescidas, implica uma formação mais aprofundada e que os valores essenciais nas sociedades democráticas sejam respeitados e reconhecidos por quem ensina.
Finalmente, não se deve fugir à questão da organização sindical, que contribuiu para a maneira anormal como decorreu o ano letivo. O crescente aparecimento de movimentos inorgânicos não ajudou a que houvesse tranquilidade e clareza nas formas de luta, com as organizações a parecer que competiam umas com as outras, querendo ver quem mais e melhor reivindicava. Entendendo que os sindicatos têm as suas próprias estratégias e que nem todos querem trilhar os mesmos caminhos, abre se uma nova era ao movimento sindical docente em que será preciso que, com premência, se clarifique o espaço de cada um, de modo que não se repitam algumas situações como as deste ano, em que a representatividade dos professores ficou enredada num confuso novelo de representação e de participação.
A resolução do já célebre 6.6.23 exige que o bom senso presida a uma negociação feita em mesa com a presença dos representantes dos trabalhadores da administração pública que também viram congeladas as suas carreiras. A não ser assim, creio que se trata de uma batalha perdida pelos professores.
Eu sei que a existência destes movimentos inorgânicos, por norma, cai depois de um período de euforia, deixando os que neles acreditaram um enorme desalento.
Mas, seja como for, é essencial que fique claro o posicionamento de cada entidade, em abono da profissão e de todos os que a integram quase sempre com generosidade e vontade de contribuir para o desenvolvimento dos mais novos da nossa sociedade.
PS-A Escola Eugénio de Castro fez 50 anos. Uma especial saudação a todos que, ao longo deste meio século, fizeram dela uma escola de referência da cidade.


