Opinião: À Mesa com Portugal – Almeria, não!
Acredito que o poder da escolha nos torna mais livres, mais autónomos, mais conscientes do que é o nosso lugar no mundo. Será sempre mais fácil fechar os olhos e não querer ver a realidade, ou neste caso, achar que o mundo acontece todo na nossa rua. Mas não, ele aparece na nossa rua, mas faz um caminho grande até lá chegar. Hoje passei num lugar estranho, em Almería. Primeiro, estava deslumbrada com a paisagem de montanha que parecia ir até ao mar, mas subitamente fui-me apercebendo que tamanha beleza natural estava, em quase toda a sua superfície, preenchida com umas estruturas cobertas de plásticos. Inicialmente, pareciam somente umas estufas de produção agrícola,mas ao longo de quase 100 quilómetros deparei-me com um cenário que parecia gritar.
Na verdade, fui-me apercebendo que todo o espaço entre a montanha e o mar era plataforma para inúmeras estufas. Estranho era olhar e ver somente as estruturas cobertas sem qualquer designação ou pessoas. Pior foi perceber que tal acontecia em terra de ninguém. À volta, nem uma casa, um aglomerado urbano ou rural, apenas aquele cenário a tresandar a exploração. No silêncio da minha viagem interrogava-me o que seria ali produzido, quem seriam os trabalhadores, onde viveriam aquelas pessoas, como seria trabalhar naquelas estufas com temperatura extrema como a que estava hoje. Senti que o espaço gritava. Afinal, como poderia uma zona tão árida, tão seca, tão pouco irrigada ser suporte de tamanha produção agrícola intensiva.
Fui pesquisar mal tive oportunidade e percebi que o que se passa em Almería parece estar ausente dos olhos de muitos, mas é grave. Consumimos tomates, cebolas, alhos, pimentos, pepinos, frutas provenientes daquela região e nem temos consciência de que ali se passa.
Para além de um brutal impacto na paisagem natural (eu própria não acreditaria se não tivesse visto) com cerca de 32000 hectares de estufas que desfeiam a paisagem, ali trabalham sobretudo emigrantes africanos que são vítimas de forte exploração laboral com salários baixíssimos e péssimas condições de vida. Infelizmente, a forte pressão agrícola agrava o já depauperado sistema hídrico da região, pois que na região a água é escassa. Sim, o cenário grita bem alto, contudo, a maioria não ouve porque não conhece, porque nunca testemunhou com os seus próprios olhos e sentimentos o que eu hoje vi e senti.
O turismo, ora fica mais abaixo, ora mais acima, dando uma imagem glamorosa do Sul de Espanha. Lá em baixo, o Mediterrâneo sufoca e é vítima do que outrora lhe Deus riqueza, a agricultura. Eu só quis fugir dali, dizer o que vi e pedir que não comprem produtos de Almería. Escolham melhor, escolham pela liberdade, vejam a vergonha e miséria humana que um inofensivo tomate ou pepino pode esconder. Sim, os meus olhos não esquecerão o que viram hoje.


