Opinião: A República e os prémios desconfortáveis
Esta semana foram divulgados os vencedores dos Prémios Gazeta, os nossos Pulitzer, os mais prestigiados prémios do Jornalismo português. O Prémio Gazeta de Imprensa foi atribuído ex aequo aos jornalistas Pedro Caldeira Rodrigues e Miguel Carvalho. O primeiro foi distinguido pelo conjunto de reportagens “Chove em Kiev”, cujas primeiras são ainda anteriores à invasão russa, uma peça fundamental para a compreensão do conflito; o segundo pela reportagem “O braço armado do Chega”, sobre a militância legalmente proibida de profissionais da PSP e da GNR no partido. Os prémios distinguem dois trabalhos notáveis de Jornalismo, que nos recordam aquilo que ele deve ser: um instrumento da Democracia, um campo de liberdade e um espaço de pluralidade. Mas o prémio do Miguel Carvalho é especialmente simbólico, não só porque foi atribuído umas semanas depois de o jornalista ter deixado, desencantado, o Órgão de Comunicação onde o líamos há 24 anos, mas também por ser um trabalho muito corajoso – com custos pessoais – de investigação, uma prática em vias de extinção no ofício. Quando o Miguel anunciou a saída, esmagou-nos com a sua coragem e obrigou-nos a um confronto com o que não pode ser ignorado. Na nota de agradecimento da distinção, ele diz que, numa altura em que o jornalismo “vive tempos angustiantes, [o prémio] é como uma espécie de respiração assistida por mais uns tempos, apesar da asfixia da época”. Este prémio é isso tudo, mas é ainda uma outra coisa: um incómodo. Porque combate o silenciamento e pede ao Miguel – e a todos os outros – que se continue a fazer ouvir.
Também por estes dias, vimos a Cátia Mazari Oliveira, mais conhecida por A Garota Não, receber, na televisão, um Globo de Ouro, na categoria de Melhor Intérprete. Subiu ao palco sem lantejoulas, nem plumas, nem brilhos, e suspendeu o glamour da festa para nos recordar que veio de um sítio de onde a maioria das pessoas não chega a sair – uma raiz que partilhamos e da qual muito me orgulho – e que ela chegou ali, pelo pé dela, depois de saltar muitos muros, alguns dos quais foi derrubando pelo caminho, tornado isto mais fácil para quem vier a seguir. Chegou ali, obrigando-se a reescrever o fim da história que a vida lhe apresentou à nascença, pousou o globo no chão, abriu o papelinho que levava na mão e falou da falácia da meritocracia, do problema da habitação, da velocidade que nos engole e do vazio (“vivemos o tempo da kombucha, do coaching, das soft skills e da gratidão”). Li muita gente comovida com o discurso e a postura da Cátia, mas vi também muita gente incomodada com aquela presença tão contracorrente. E vi, ainda, outros declararem que ela não devia estar ali, no meio de tudo o que critica. Mas eu discordo. Quando a vi, com aquela força toda e uma humildade que não a faz vergar, nem baixar a cabeça – e que nunca a impediu de se apresentar com a declaração de interesses na ponta da língua – achei que era exatamente ali que ela devia estar. O prémio que ela foi receber e a forma como o foi receber é, ainda, uma outra coisa: um incómodo. Porque combate o silenciamento e pede à Cátia – e a todos os outros – que continue a estar onde não era suposto estar.
Esta semana assinalámos o aniversário da Implantação da República, uma data que nos recorda a importância do Estado de Direito, da cidadania, da liberdade, igualdade e fraternidade. Não há República sem um combate sério e continuado às desigualdades sociais, sem defesa da liberdade e sem democracia participativa. Não há República sem voz – sem espaço para todas as vozes. A República faz-se da inclusão, da participação e do envolvimento de cada um de nós na construção de um país melhor, mais justo e inclusivo – garante primeiro dos valores republicanos. Não há República sem coletivo: ela é de todos e a todos convoca. Mas também não há República sem desconforto: a Liberdade é desconfortável. Obriga-nos ao confronto com o outro lado, a ouvir todas as vozes, incluindo aquelas com as quais discordamos por completo; obriga-nos a fazer espaço para todos e não apenas para aqueles que o herdaram. A República é, também, um prémio desconfortável. Que se mantenha assim, porque isso é o garante de que continuamos todos a ganhar.


