Opinião: Quando as diferenças se tornam desigualdades
Todos nós vivemos com imensos preconceitos, nem que seja o preconceito daqueles que têm preconceitos. Chegamos à contradição de pessoas que gritando liberdade não aceitam algumas opiniões e visões diferentes das suas.
Os nossos preconceitos podem ter a ver com a cor de pele, cultura, apresentação, estatuto, sexo, etnia, limitações físicas, religião… São muitos destes preconceitos que alimentam o Bullying, o racismo, o machismo, a intolerância… a violência e a guerra.
Sem nos apercebermos, as diferenças incomodam-nos e colocam-nos de pé atrás. Por isso, a tendência é estarmos e vivermos com os ‘iguais’… os que pensam igual, vestem parecido, têm o mesmo estatuto económico…
De facto, as diferenças aparecem como ameaças, obstáculos, lugares de receio… e muitas vezes acabam em insultos, ofensa e repulsa.
Contudo, o problema não está nas diferenças. O problema está quando as diferenças se transformam em desigualdades.
Não precisamos de esbater as diferenças, nem de anulá-las e, muito menos, tentar viver como se não existissem. Precisamos de assumir as diferenças, reforça-las, perceber a riqueza que decorre da diferença. Precisamos de aprender a dialogar e a conviver com outros modos de pensar e viver.
Muitos crentes acreditam que fomos todos ‘criados’ e sonhados por Deus. Se repararmos todos somos diferentes. Ou seja, Deus é o autor da diferença e da diversidade. Cada diferença tem algo de divino e profundamente sagrado.
A diferença pode enriquecer-nos e revelar-nos a beleza da multiplicidade. Todos, todos, todos… do Papa Francisco e do Evangelho, não é um ato de simpatia e de acolhimento, mas de fundamento e de identidade humana. Só nos dizemos plenamente na diferença.
Mas todos, todos, todos… não é tudo, tudo, tudo. O limite está precisamente quando fazemos das diferenças desigualdades, quando as palavras e os gestos são de arrogância, agressividade, ofensa, indiferença…
Mas será que haja alguma condição que nos uma a todos, crentes e não crentes?… Para além da morte, encontro outra: somos todos filhos. E isso já diz muito. Não somos os autores de nós mesmos, devemos a vida a alguém, somos fruto de cuidado e estamos vivos porque alguém nos protegeu e alimentou… Um crente ainda dirá que somos (todos) filhos de Deus.
Sermos filhos abre a porta da fraternidade. De algum modo, somos todos ‘irmãos’, estamos irmanados pelas mesmas contingências existenciais e até pelos mesmos desejos de felicidade – no tempo e na geografia que a vida nos oferece. Façamos a paz!


