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Opinião: Buarque e uma Liberdade comovida e muda

29 de às 10h48
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Depois de uma pandemia e de quatro anos à espera, Chico Buarque veio, finalmente, a Portugal receber o Prémio Camões 2019. Aquele que é um dos maiores nomes da música mundial, da Língua Portuguesa e da Lusofonia, foi ao Palácio Nacional de Queluz, na véspera dos 49 anos do 25 de Abril de 1974, receber o maior prémio da Literatura em Língua Portuguesa. Mas, mais do que isso, veio recordar-nos que pelo sonho é que vamos. Ele disse-o, com todas as letras, e eu ouvi-o. Comovida e muda.
No seu discurso de agradecimento, Buarque falou do pai, historiador e sociólogo, e da herança maior que ele lhe deixou: o amor pelos livros e pela Língua Portuguesa. A mesma inestimável herança que eu recebi do meu – embora o encontro do meu pai com os livros tenha ocorrido fora da Escola. Marginal, como o dos amantes. Falou-nos desse pai, seu primeiro leitor e crítico, conselheiro de livros e autores, o pai que “não se aborreceu” quando ele se apaixonou pela música, amigo íntimo de Vinicius, “para quem a palavra cantada talvez fosse simplesmente um jeito mais sensual de falar a nossa Língua”. Imaginou o orgulho que o pai sentiria de o ver ali. O pai que tanto contribuiu para a sua formação política, que “durante a ditadura do Estado Novo militou na Esquerda Democrática, futuro Partido Socialista” e saiu da Universidade em solidariedade para com os colegas afastados do Ensino pela ditadura. O pai que não viveu o suficiente para ver a Democracia abraçar o Brasil, nem ser novamente ameaçada.
Falou dos seus antepassados negros, indígenas e judeus, cristãos-novos portugueses, perseguidos pela Inquisição. “Trago nas veias sangue do açoitado e do açoitador”, definiu-se. Falou de Portugal, onde “mais ou menos” se sente em casa, e destacou Lisboa, Coimbra e Porto como as cidades que melhor conhece. Recordou João Cabral, o primeiro brasileiro a receber o Prémio Camões, que não gostava de música e que Buarque duvida que, alguma vez, tenha folheado um livro seu. Agradeceu o prémio e recordou que quando escreveu o seu primeiro romance, “Estorvo”, em 1990, publicá-lo foi como voltar a entrar no escritório do pai com um manuscrito que temia frágil, à procura da aprovação dele – o primeiro leitor, o primeiro crítico. De lá, para cá, fez um longo caminho, mas não se esquece da casa de partida: “faço gosto em ser reconhecido no Brasil como compositor popular”. E, como acontece sempre a quem tem ainda muito futuro, olha para o presente, honrando o que andámos para aqui chegar: “em Portugal, [faço gosto em ser reconhecido] como o gajo que um dia pediu que lhe mandassem um cravo e um cheirinho de alecrim”.
Saudando a felicidade de receber o prémio na véspera da data da Revolução dos Cravos, Buarque recordou, ainda, que enquanto esperou por este dia, passou “uma eternidade” no seu país. “Foi um tempo em que o tempo parecia andar para trás”. O Governo brasileiro que tentou retrair a nação do samba, do Pelé, das caipirinhas e do jeito mais sensual de falar a Língua de Camões e de Vinicius, foi vencido nas urnas, mas as sombras só com luz poderemos vencer. “Nem por isso podemos nos distrair, pois a ameaça fascista persiste, no Brasil como um pouco por toda [a] parte”, recordou.
Francisco Buarque de Hollanda – que tantas vezes me tem ajudado a entender o mundo e o Outro – veio a Portugal receber o maior prémio da Literatura em Língua Portuguesa, já assinado pelo Presidente Lula da Silva. No dia seguinte, acordámos para uma madrugada de esperança, feita dia inicial inteiro e limpo. Fui descer a Avenida Sá da Bandeira – levava comigo o Chico e o meu pai. Trago-os sempre no peito, onde quer que vá. Há já muito tempo que não via tanta gente, tantos cravos, na rua. Cravos que se recusam a murchar e que, naquele dia, transformaram a avenida numa grande alameda por onde passaram homens – e mulheres – livres, a gritar “somos muitos, muitos, mil para continuar Abril!”. Ouvi-os a todos. Comovida e muda.

Pode ler a opinião na edição impressa e digital do DIÁRIO AS BEIRAS

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