Opinião: À Mesa com Portugal – pequeno produtor
Vem um festival e tudo se gasta. Na música para entreter o povo. Na publicidade e no programa de tv, que os 15m de fama atraem. Esta é a estratégia que se pensa para promover a gastronomia. Planos sempre de curto de prazo que duram o tempo de um fósforo. Levam-se alguns produtores e alguns restaurantes para o meio da confusão, contrata-se um qualquer chefe que esteja na moda e lá se vai ao dito festival gastronómico. Verdade seja dita que, alguns municípios, já perceberam que não pode ser este o caminho e, por isso, investem no apoio aos produtores e na qualificação dos produtos. Contudo, ainda é curto o que se faz.
A estratégia não pode ser momentânea, apenas centrada no fogo fátuo que são estes momentos, mas tem de ser um caminho que dê segurança aos produtores, que os liberte do peso a que estão submetidos e que os asfixiam, algumas vezes, quase até à morte. Os gabinetes municipais de apoio ao empreendedorismo não podem viver na bolha do faz de conta, mas têm de ser lugar ativos no suporte às dificuldades dos produtores.
Como é que um pequeno produtor de enchidos, queijos, doçaria ou outro produto qualquer pode manter a prática produtiva inspirada e bem-sucedida se o seu quotidiano é feito de problemas que, tanto derivam das dificuldades do negócio, como são provocados pelo desgaste de tudo ter de resolver. À volta de qualquer pequeno produtor, há um zumbido de entidades que vistoriam e empresas que existem para “fazer cumprir a lei”. E, se numa grande empresa há alguém que tem a função de garantir o cumprimento das inúmeras obrigações, nas pequenas empresas esse peso cai todo em cima dos ombros de uma ou duas pessoas.
Como pode sobrar tempo para a inovação, para a oxigenação do negócio quando a cabeça está presa à multiplicidade de assuntos que têm de ser tratados sob pena, muitas vezes, de multas, taxas, repreensões ou vistorias, sempre ameaçadoras, onde a exigência canta de alto porque pode. Não têm noção os senhores dirigentes municipais do que custa manter um negócio, do que exige manter a tradição gastronómica, do peso que se tem, do que se deixa de viver, do abandono que exige em relação à família, aos amigos, à vida em geral. Não têm noção porque, na maioria das vezes, nunca trabalharam no setor privado, mas contaram sempre com o conforto do privilégio do setor público.
As entidades municipais devem dar energia positiva aos pequenos produtores para além do brilho efémero. Festivais gastronómicos de meia tigela, não. Porque a gastronomia é feita de pessoas e não de vaidades.


